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No Presépio de Belém (IV) – Os Pastores

O Messias prometido, o Deus feito homem, nasceu no lugar menos previsível para se encontrar um grande personagem. Deus surpreende-nos com a sua humildade e também com o seu poder.

Quem diria que aquela criança recém-nascida, deitada sobre uma manjedoura, como que escondida num estábulo pouco acolhedor para um ser humano, se tornaria a mais importante figura que a história conheceu, em todos os tempos?

Não nasceu numa família influente, não teve sequer uma casa humana para vir ao mundo e, no silêncio daquela noite, não despertou a atenção de ninguém relevante no seu país, no seu povo e, menos ainda, nos detentores da soberania política e militar que tinham o seu centro fundamental na cidade de Roma.

Mais perto ainda, naquela espécie de pequeno quintal do Império de Augusto, que era a Palestina, o rei Herodes, tão cioso do seu trono, os sumo-sacerdotes, tão poderosos e orgulhosos que habitavam em Jerusalém, os mais distintos e afamados rabis dos fariseus, que tantos preceitos e costumes complexos e rebuscados impunham aos seus seguidores, dormiam sem quaisquer sobressaltos e despreocupados...

No entanto, um pequeno grupo de pastores é surpreendido com a presença dum emissário celeste, um anjo, que os assusta ao aparecer. Tem de lhes dizer para se acalmarem: “Não temais, porque eis que vos anuncio a boa nova de uma grande alegria (...) Nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador, que é o Cristo Senhor. E eis o que vos servirá de sinal: Encontrareis um menino, envolto em panos, deitado numa manjedoura. E, subitamente, (surge) uma multidão da milícia celeste, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na Terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 8-14).

Os pastores não hesitam. As informações que receberam são para eles, perfeitos conhecedores dos recantos mais insignificantes daquela região, o suficiente para, a breve trecho, chegarem à gruta, onde encontram exactamente o que o anjo lhes havia anunciado. É mais do que certo, apesar da surpresa e da pressa, que não se tenham esquecido de levar algum presente para o Messias. Com ele queriam, além de cumprir um costume muito próprio daquela região do Oriente, tributar a sua homenagem a tão ilustre criança, pois eles sabiam, como todos os israelitas, que os profetas tinham prometido o seu aparecimento repetidas vezes ao longo dos séculos.

Só este tipo de gente, tão desprezada e malquista dos fariseus e dos escribas, que lhes chamavam “povo da terra”, incapaz das higienes rigorosas e das lavagens de copos e pratos tão do gosto daqueles mestres da Antiga Lei, tomou conhecimento do mais importante acontecimento ocorrido entre os homens.

Deus manifestou-lho por ser simples e humilde. Decerto pessoas rudes e pouco cultas, mas com a disposição de receberem do céu uma mensagem inesperada e difícil de entender.

Como seria a reacção do mais importante dos sacerdotes do templo de Jerusalém, tão rico, louvado e até temido, ou dum mestre fariseu de grande fama, cheio de pretensas leis e restrições comportamentais,(por exemplo, para cumprir sem pecar o descanso sabático), se um anjo lhes dissesse, com simplicidade e determinação: “O Messias prometido veio ao mundo e encontra-se coberto com panos na manjedoira dum estábulo de animais”.

Provavelmente, pensariam que aquele anjo era um demónio disfarçado. Fugiriam dele. Ou então, escandalizar-se-iam com tão desrespeitosa informação, rasgando as suas vestes.

A linguagem de Deus nem sempre é entendida e bem acolhida por nós, quando não somos simples e humildes, como esses pastores tão pouco considerados pelos grandes do seu tempo.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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30 dezembro 2017