No passado domingo, muita gente se deitou mais tarde, apesar de segunda-feira ser um dia normal de trabalho. E a razão é simples: as eleições legislativas cobriam a programação das estações de televisão e era emocionante assistir ao fluir dos resultados que iam saindo, a pouco e pouco.
O espectador estava orientado, segundo afirmavam, com maior ou menor diferença, pelas diferentes fontes de sondagens. Quem nelas acreditou – como alguns amigos meus que se foram deitar fiados no que elas previam – certamente que, ao despertar pela manhã, sentiram uma grande surpresa. Mas, como somos todos diferentes, também as reacções foram diversas. Assim, algum comentava: “Ainda bem que me deitei. Dormi bem e não acordei ensonado; posso, por isso, fazer um juízo mais objectivo sobre o que me deu a conhecer a comunicação social esta manhã”. Já outro, mais irritado, não sei se com os resultados ou se com o desacerto de expectativas que predestinavam as aludidas sondagens, berrava em alto e bom som: “Acreditar nas sondagens é como sair à rua de olhos tapados. Não se sabe para onde se vai e corremos o risco de ser atropelados”.
Enfim, a grande surpresa foi a maioria absoluta que obteve o partido que tem estado no poder nos últimos anos. Arrecadou mais perto de 340.000 votos do que nas eleições de 2019 e foi a única facção da esquerda – com a excepção do Livre que, apesar de ter subido um pouco mais de 1000 votos do que nas eleições anteriores , só conseguiu eleger um deputado.
Para os adeptos do Partido Socialista foi uma grande vitória e, por isso mesmo, muito festejada. Decerto que ganhar desta forma implica, em princípio durante os próximos quatro anos, uma responsabilidade governamental muito bem fundamentada e vivida. E na história recente da nossa democracia, a verdade é que uma situação semelhante já conheceu este partido, mas o resultado não foi nada positivo e, tanto quanto consta, houve quem se aproveitasse desta situação para favorecer interesses pessoais dum modo nada claro.
O rival principal do vencedor – o PSD – deve ter sentido uma profunda desilusão em face do que lhe mostraram os resultados. Curiosamente, teve um maior número de votantes do que em 2019 – cerca de 41.000 – mas os 27,80% dos eleitores que o preferiram só lhe deram 71 deputados (o PS chegou aos 117).
O CDS como que se sumiu e terá, com certeza, muitas dificuldades futuras em vir a ser muito mais do que uma saudade ou uma lembrança de quem nele acreditava.
Muito pesarosos ficaram os partidos de esquerda ou afins que viram emagrecer substancialmente o seu número de deputados. O mais relevante foi o Bloco, que perdeu para cima de 250.000 votos nas presentes eleições. Ficará, por isso, apenas com 5 deputados (eram 19). O PC, que somou nas urnas de todo o país aproximadamente menos 96.000 votos, apenas poderá contar com 6 representantes seus na Assembleia da República (eram 12). E o PAN, por fim, terá no mesmo lugar apenas um seu defensor (eram 4).
Mas houve, também quem se sentisse feliz com o crescimento dos seus deputados. O Chega e a Iniciativa Liberal, que somente contavam cada um com um elemento do seu partido na legislatura passada, passam, respetivamente para: 12 e 5.
Ao que parece, a Assembleia da República aparecerá profundamente remodelada, não tanto pela surpreendente maioria conquistada pelo PS (como atrás referimos, esta situação não é nova), mas sobretudo pela existência de dois grupos que ampliaram substancialmente a sua representatividade. Se a esquerda moderada (PS) cresceu de novo, a esquerda mais contundente enfraqueceu, perante a chamada direita que se alargou a olhos vistos, através de dois partidos que só tinham uma pessoa sua no hemiciclo. As suas vozes, supõe-se, far-se-ão ouvir, com certeza, duma forma mais viva em S. Bento, a partir de agora.
Obs. – Estes dados não contam com os votos do eleitorado residente no estrangeiro.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva