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Nem uma vítima mais

Na última quinta feira, Braga acordou em choque.

Em choque pela morte, em choque por ser um crime de violência doméstica, em choque por ser um assassinato cometido contra uma mãe com dois filhos, em choque por ter sido cometido contra uma pessoa que poderia ser qualquer uma de nós.

Condenar e chorar não chega!

O slogan usado nas redes sociais “Nenhuma Vitima Mais”, embora exteriorize uma estado de espirito coletivo que é de louvar, de nada serve se tudo continuar na mesma.

Foi relevante verificar a união da sociedade bracarense na condenação deste caso, perceber que, nas questões mais essências à vida humana, estamos todos com o mesmo objetivo comum.

No entanto, o tempo passa, os ânimos baixam, cada um vai à sua vida e só na memória dos mais próximos é que este acontecimento terrível fica lacrado para sempre.

É importante perceber que neste caso, como em muitos que desgraçadamente se seguirão, falha, em primeiro lugar o Estado, falha a sociedade, falha cada um de nós, falhamos todos. Mas apenas dizer isto ou dizer nada é absolutamente idêntico.

De que serve invocarem comovidamente em atos públicos os nomes de vítimas de violência doméstica, para tudo continuar quase igual?

Não podemos cometer a injustiça de esquecer valorosas pessoas que, quer em entidades do estado, quer em organizações privadas, quer individualmente, lutam contra esta desgraça da violência doméstica, evitando a ocorrência de casos graves ou no apoio às vitimas.

O que mais me impressiona neste caso, e em muitos casos semelhantes é, à partida, não ter havido sinais aparentemente significativos reveladores da ocorrência desta desgraça, ou se existiram, foram por todos ignorados. Alguém que se encontra com outra, com quem tem um conflito – seja de que ordem for – com uma faca no bolso, tem premeditado que aconteça algo de mesmo muito mau. E essa premeditação nunca é recente!

Quantas pessoas haverá em Portugal, no momento em que o leitor estiver a ler este texto, na mesma situação?

Como os acudir?

No entanto não me refiro apenas a situações conjugais, mas também a situações relativas entre outros familiares – irmãos, pais, filhos, etc. – com distúrbios de personalidade e que desgraçam a vida uns dos outros.

E sempre no silêncio cúmplice das paredes das suas casas ou muitas vezes ignorados pelos vizinhos, pela família, pelos amigos, ou ignorados simplesmente por quem ia a passar.

Interrogo-me como poderão ser desenvolvidas medidas ou mecanismos que, de alguma maneira, deem a devida relevância a mínimos sinais de alerta que justifiquem e permitam uma intervenção atempada?

Este caso, que chocou e impressionou a nossa cidade, seria aparentemente de muito difícil deteção pela inexistência de sinais percetíveis ou, se os houve, pela inexistência da sua relevação.

Embora seja assunto para especialistas, parece-me que o Estado deverá tentar criar mecanismos de alerta, ou, pelo menos, de criar condições para uma consciência coletiva que incentive atitudes, quer da vítima, quer de terceiros, para intervenção em tempo oportuno.

Se não for assim, o slogan “NEM UMA VÍTIMA MAIS” não evitará que ocorram “MUITAS VÍTIMAS MAIS”.


Autor: Joaquim Barbosa
DM

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25 setembro 2019