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Nem tudo será como dantes

Após a pandemia, muita coisa poderá mudar, muita coisa não será como era; e penso que poderá mudar para melhor em alguns contextos sociais, sobretudo. Os relativos às relações familiares, profissionais, humanas e espirituais. E isto porque os ensinamentos que vamos retirando desta dura e trágica experiência de vida coletiva são múltiplos e muito reconfortantes; porque, se pensarmos no mundo consumista, relativista, hedonista e materialista em que temos vivido, as respostas que foram dadas pela nossa sociedade civil às fragilidades e carências, inclusive do Serviço Nacional de Saúde (SNS), permitem antever um futuro mais promissor. Assim, vejamos: Parte Primeira - Um ensinamento que podemos retirar da tragédia que vivemos prende-se com a necessidade de termos governantes atentos, altruístas, competentes, ativos – verdadeiros estadistas – com uma visão de futuro e uma permanente preocupação com o país global; e, mormente, sejam capazes de governar com rigor, justiça e verdade, assentes num permanente sentido de solidariedade e de serviço comunitário. E se as vítimas mais atingidas pela Covid-19 foram as pessoas mais idosas, pondo de parte o fator idade, esta fatalidade deve-se mais à ausência de organização e de meios para enfrentar a pandemia; e porque não temos tido uma política de apoio e fiscalização oficiais às instituições de terceira idade, permitindo que muitas não passem de armazéns, onde se arrumam solidões, bagatelas, abandonos e medos, num claro menosprezo dos nossos idosos. Parte Segunda - Outro ensinamento prende-se com o trabalho louvável da maioria dos meios de comunicação social, informando com isenção, rigor e verdade; e, mais louvável ainda, praticando uma pedagogia constante de afirmação de valores, princípios e regras comunitárias, tão necessários para enfrentar com responsabilidade, vigilância e serenidade a pandemia; e este terá que ser um bom exemplo a manter no futuro, pondo de lado a demagogia, a especulação e o sensacionalismo tantas vezes presentes na informação, com absoluto repúdio da fake news. Parte Terceira - Uma terceira lição reside ma evidência da nossa fragilidade, impreparação e escassez de meios para enfrentar uma situação de tamanha exigência como esta que enfrentamos; e a lembrar-nos que somente uma substituição dos valores materiais, relativistas e éticos em que temos vivemos pelos valores da solidariedade, do altruísmo, do humanismo e do espiritualismo podem garantir um futuro melhor para todos. E as provas dadas de apoio e presença ativa por vastos setores da população (autarcas, empresários, investigadores, profissionais de todas as áreas de atividade, voluntários e gente anónima) aos hospitais, lares de terceira idade, vizinhos necessitados e frágeis em meios de combate (ventiladores, máscaras, viseiras, remédios, produtos de primeira necessidade) e tudo o mais são uma enorme onda de esperança de que, no futuro, todos poderemos ser mais solidários, generosos, irmãos; porque o mundo em que vivemos tem de ser cada vez mais um mundo do Nós e não um mundo do Eu. Parte Quarta - O último ensinamento é o que releva do globalismo em que o mundo vive e em todos os setores de atividade e nos transmite a certeza de que os países não podem mais viver isolados, fechados no seu nacionalismo e egoísmo, nas suas supostas autossuficiências; e porque ninguém se pode julgar capaz de enfrentar e vencer um inimigo como este que atingiu a Humanidade e que, para ser vencido, exige meios humanos e materiais que nenhum país sozinho possui, só o espírito humanitário global, ou seja a ajuda desinteressada e solidária de todos e, sobretudo, dos mais poderosos e ricos aos mais frágeis e pobres, pode garantir a sobrevivência de todos. E a este propósito e em homenagem a todas as vítimas desta tragédia global, aqui transcrevo o poema do poeta inglês John Donne (1572 - 1631) e que bem ilustra a verdade de um por todos e todos por um: Nenhum homem é uma ilha Cada homem é um fragmento de um continente Uma parte da Terra. Se um torrão é arrastado para o mar A Europa fica diminuída Como se fosse um promontório Como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria. A morte de qualquer homem diminui-me Porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, Eles dobram também por ti. E a terminar, deixo aos psicólogos, psiquiatras, sociólogos e pedagogos a seguinte questão: o comportamento exemplar dos portugueses, nesta situação pandémica, terá sido despoletado pelo medo ou, tão-só, fruto de um sentido de profunda responsabilidade individual e social? Ou um pouco de ambos? Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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22 abril 2020