Há uma semana, um dirigente desportivo, na assembleia que ditava o fim do seu mandato ou a continuidade no desempenho do cargo, apelou aos presentes, de modo irascível, para não comprarem jornais desportivos e desligarem-se dos quatro canais audiovisuais (RTP, SIC, TVI e CMTV), excetuando o canal televisivo da sua empresa.
Obviamente que este pedido não surtiu qualquer efeito, uma vez que os habituais comentadores nos programas de debate desportivo continuaram a sua vidinha e ignoraram o pedido do “manda-chuva” com garras de leão.
O verdadeiro testemunho está registado na praça pública pela opinião dos comentadores “sportingados” de renome nacional (um termo inexistente na língua de Camões e da exclusiva responsabilidade morfológica do seu utilizador), como é o caso de José Pina, quando exclama: “Percebo o boicote, mas a essência da minha vida é a liberdade. Sou eu que decido os programas em que participo. Não sou funcionário do clube”. Augusto Inácio não ficou muito longe da mesma ideia, dizendo:“Não sou comentador do Sporting, que fique bem claro. Sou um comentador desportivo independente e livre. Nunca recebo cartilhas, recados…”. Por último, Paulo Andrade foi mais arrojado, afirmando: “Não recebo lições de militância do Sporting de ninguém. Penso pela minha cabeça. Não abdico dos meus valores. Não estou aqui por interesses pessoais”. Admite-se que o antigo jogador do clube leonino Manuel Fernandes possa abandonar as lides de comentador num canal de televisão pública, devido ao facto de ser funcionário do Sporting e estar submetido à política de trabalho da empresa ou como consequência colidir ou entrar em rutura com o seu “patrão”.
É inadmissível numa sociedade aberta, regendo-se pelos princípios democráticos num Estado de Direito e pela liberdade, que palavras oriundas do púlpito resvalem para comportamentos tóxicos, anticívicos, agressivos, altamente insultuosos para os profissionais da comunicação social que somente faziam o seu trabalho no exterior das instalações do Estádio José Alvalade, valendo-lhes a pronta e eficaz intervenção da Polícia de Segurança Pública, temendo-se que a ferocidade dos adeptos leoninos pudesse atingir dimensões muito mais graves.
O convite do dirigente “sportingado” como um motor provocatório caiu em saco roto. A réstia do autoritarismo cego utilizado contra a comunicação social devia motivar um inquérito por quem tem responsabilidades de investigação penal e desportiva sobre o indigno vocabulário utilizado, que acarreta sérios riscos à segurança pública, nomeadamente para um grupo sócio-profissional, legitimamente presente e a exercer a sua função da difusão jornalística junto dos cidadãos.
Em qualquer parte da sociedade é impensável permitir atitudes perversas e perigosas que fomentam o ódio, a discórdia e afugentam os adeptos dos recintos desportivos.
As palavras do dirigente em apreço, que não admite oposição e exige mais poder para destruir quem “espalha a doença” contra a sua governação, não podem ser desvalorizadas, como se tivessem sido uma infelicidade ocasional. A quem está nestas posições exige-se contenção, especialmente quando se dirige ao público num ambiente de tensão, áspero e desassossegado. Não é admissível que alguém incite cidadãos desconcertados e enfurecidos contra os jornalistas e repórteres de imagem, tratando-os como desprezíveis ou malfazejos.
Autor: Albino Gonçalves
Nem tudo é admissível
DM
26 fevereiro 2018