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Natureza e finalidades dos Evangelhos

Os evangelhos ocupam um lugar de relevo na vida da Igreja: no culto, na catequese, na reflexão teológica e na religiosidade popular. O carácter simples destes escritos contrasta com a sua complexidade e dificuldade de interpretação: são livros antigos; apresentam um género literário muito próprio; e, apesar de semelhantes, têm muito de diverso. Para a sua melhor compreensão, impõe-se conhecer a sua natureza e finalidades.

Os evangelhos apresentam a vida de Jesus e o seu ensinamento em narrativas e discursos, sendo o carácter narrativo mais evidente em Marcos e Lucas e o discursivo nos restantes. Um dos elementos fundamentais do texto narrativo (em latim, textum quer dizer tecido) é a trama ou intriga, estrutura que relaciona os personagens, as suas motivações e formas de agir. É ela que gera o interesse do leitor e faz a diferença entre os evangelhos canónicos e, por exemplo, o apócrifo Evangelho de Tomé, obra gnóstica do séc. II, que não possui estrutura narrativa, mas frases introduzidas pela expressão “Jesus disse”.

O caráter narrativo dos evangelhos sublinha que se trata de obras unitárias, coerentes e bem trabalhadas, e não de uma mera compilação de fragmentos pré-existentes. Por isso, só uma leitura contínua permite identificar a trama do relato, o que não acontece na leitura espiritual e litúrgica por recorrer, com muita frequência, a frases isoladas e separadas do seu contexto. Além disso, um determinado tipo de teologia tende a ver os acontecimentos apenas como realização do “plano de Deus”, esquecendo a liberdade humana e a trama que tal origina.

Os evangelhos não são pura ficção nem crónicas históricas do passado, mas narrações teológicas, porque descobrem na vida de Jesus a atuação de Deus e a realização das Escrituras. Se os evangelistas se situam no âmbito da tradição judaica, que descobre a ação de Deus na história, os evangelhos não incidem apenas na vida e ensinamentos de Jesus, pois são também confissões de fé sobre a sua presença nas comunidades crentes. Selecionando os acontecimentos, reelaborando-os e interpretando-os, os evangelistas procuram elaborar um relato interpelante e introduzir o leitor na narrativa.

Constata-se existir nos evangelhos três preocupações que também estiveram presentes na anterior transmissão da tradição: evocar a história de Jesus de Nazaré (as suas palavras e obras aparecem unidas); atualizar a tradição recebida (Jesus é o Senhor glorioso); reinterpretar a tradição, lançando mão do Antigo Testamento (Ele é o prometido e esperado, o enviado de Deus).

Os evangelhos não são relatos históricos nem crónicas do passado, mas estão ancorados na história. Também não são biografias, no sentido moderno do termo, apesar de estarem baseados em dados reais e pretenderem transmitir com fidelidade palavras, factos e acontecimentos da vida de Jesus. Fazem-no com uma certa dose de criatividade, mas sem dissolver a referência à história passada.

Da identidade dos evangelhos passamos agora às suas finalidades. Pretendem despertar e fortalecer a fé das comunidades, fundamentando a mensagem recebida e aceite (cfr. Lc 1, 4). No dizer do evangelista João, “estes [sinais] foram escritos para crerdes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus e, crendo, tenhais a vida nele” (Jo 20, 31).

Os evangelhos pretendem fazer da vida de Jesus o contexto em que hão-de situar-se as suas palavras. Além disso, sublinham que a fé cristã não é um mero conteúdo doutrinal, por ser inseparável da pessoa que a proclama. Pretendem também apresentar uma visão equilibrada e sintética da pessoa e obra de Jesus. As diferentes secções dos evangelhos sublinham um aspeto da sua vida ou ensinamento. Dado que havia, nos começos, a tendência a valorizar uma única destas formas (os ensinamentos, os milagres ou a paixão), os evangelistas incorporaram as diferentes tradições, integrando-as numa visão unitária e equilibrada, a fim de evitar erros e leituras distorcidas da pessoa de Jesus.

Conhecer a natureza e as finalidades dos evangelhos não é uma questão de menor importância, é antes um passo significativo na sua adequada interpretação, em ordem a uma melhor compreensão e a um maior proveito que deles se pode retirar.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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14 fevereiro 2022