Estamos às portas do Natal; mas, a chegada deste cíclico e histórico acontecimento já, há muito, se pressente na profusão das luzes, cores e ornamentações que acontecem nas superfícies comerciais, avenidas, praças, ruas e largos da cidade; e, até, nas fachadas e entradas das habitações se anuncia.
E, então, mais claramente se adivinha que o Natal está à porta no pasmo das crianças de narizitos esborrachados nas monstras flamejantes de brinquedos; e igualmente no frenesim e pressa das pessoas entrando e saindo das lojas sobraçando embrulhos coloridos prenunciadores de promessas, ternuras e sonhos já a caminho de casa; sobretudo, se sente também na bonomia com que as pessoas se saúdam ao cruzarem-se nas ruas;
- Então, boas festas!
- Que tenha um Bom Natal!
- Um Santo Natal para todos!
Nas televisões, rádios, jornais, revistas e altifalantes são constantes e efusivos os apelos ao consumo, através de imagens, filmes e
slogans que surpreendem e embotam os espíritos mais frágeis e vulneráveis; e, então, as crianças são o alvo preferido destas mensagens anunciando mundos maravilhosos de sonhos e ilusões.
Ora, perante esta realidade, nua e crua, pais e educadores perdem aos pontos a sua razão pedagógica e educativa; porque, como bem ensinam os manuais de marketing, uma imagem vale mais do que mil palavras.
Estamos, pois, às portas do Natal! Mas, estas manifestações exageradas de apelo ao consumo, à fatuidade e ao supérfluo chocam com o verdadeiro, o genuíno espírito de Natal; mormente, com a mensagem que, há dois mil e dezassete anos, transmitida foi a todos os homens de boa vontade, através do nascimento de um Menino, num estábulo frio e escuro, que deitado foi numa manjedoura entre animais que o acalentavam e a que deram o nome de Jesus; e este Menino que depressa se fez homem aceitou morrer crucificado como modelo de humildade, de paz, de desprendimento e de Amor para salvação da Humanidade; e sempre na defesa dos mais necessitados, carenciados e infelizes.
Pois bem, é urgente e necessário que todos os homens conheçam e abracem esta Verdade do Natal que, há dois mil e dezassete anos aconteceu naquele curral escuro e frio de Belém, e precisam, sobretudo, de acreditar que, enquanto houver, à sua volta, algemas e guerras, escravos e senhores, polícias e ladrões, crianças a morrer de fome e de doença, velhinhos a sofrer de solidão e de medo, jovens drogados e prostituídos e mulheres exploradas e ofendidas na sua dignidade, a Verdade do Presépio de Belém muito longe está de ser cumprida.
Até porque o verdadeiro Natal, o Natal de Afetos que se deseja será, apenas plenamente, quando os homens, sobretudo os que mais podem e, como tal, os que mais devem, olharem mais para fora de si e ver nos outros homens o complemento de si próprios, um irmão; e quando os governantes praticarem a justiça social em prol do bem comum e não consentirem que os cidadãos que governam sejam privados do essencial para viver.
Só quando houver mais solidariedade, paz, justiça e amor no coração daqueles que os não têm e, até, depreciam; ou, fundamentalmente, vença a vontade e a força de se nascer todos os dias para um mundo novo, onde a fraternidade seja o lema e a lei das relações humanas, então podemos dizer que todos os dias vivemos um Natal de Afetos.
Afinal, tudo é tão simples e tão-somente se resume a que a nossa vida seja um Natal de Afetos para com os explorados, humilhados, ofendidos, esquecidos, tristes, solitários e carentes; e onde a dádiva, a alegria, a partilha, o perdão, a justiça, a paz e o Amor sejam os princípios de ação e de vida.
E, então, só assim poderemos afirmar que o nascimento do Menino Jesus ou seja a Verdade do Presépio de Belém está finalmente cumprida!
Um santo Natal e até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado