No último apontamento que escrevi sobre a governabilidade do país, pós-eleições, deixei a perceber que se tornava imperioso um entendimento partidário para garantir a estabilidade parlamentar. Fiz um apelo a que um, dois ou mais partidos se entendessem para esse fim. Não foi preciso porque o PS, ao alcançar a maioria absoluta, garantiu essa estabilidade e não precisa de correr atrás de acordos para governar. Errei nas previsões como erraram as sondagens e todos os analistas que, fiados nelas, fizeram seus comentários. Aqui a minha contrição. Mas como não há mal que bem não traga, a maioria parlamentar do PS trouxe-nos a certeza de que durante quatro anos estamos livres de novas eleições e de que o programa do Partido Socialista pode ser concretizado sem desculpas ou adiamentos. Foi bom para Portugal e, quando assim é, é bom para mim em particular e bom para o país em geral. O PS arrosta agora com dois desafios muito importantes: um de controlo próximo e um de controlo remoto. Aquele, porque todos vão querer ser ministro, secretário-de-estado, diretor-geral, presidente de um qualquer instituto público e até chefinho de qualquer organismo local. O PS vai ser enxameado de penduras que são as sanguessugas de qualquer partido político que chega ao poder. São cristãos-novos de credo, mas por dentro vazios de fé. Assim, uma maioria absoluta transforma-se numa “fábrica de fazer adeptos”. As maiorias absolutas levam quase sempre a autoritarismos, desde os grandes gabinetes ministeriais aos mais pequenos guichés de serviços. A governação é uma grande roda dentada que tem de estar atenta aos sinais das pequenas rodas, por mais pequenas que sejam podem encravar a roda grande levando-a à paralisação. Falo nisto porque já oiço por aí vozes a dizer “agora é que ninguém nos trava”; são ainda murmúrios com cheiro de desforra que indiciam que os penduras socialistas querem tornar-se os nababos da situação. É, pois, necessário, guardar os ladrões de casa. Mas atenção, quem se não guarda a si mesmo não vale o dinheiro da sentinela. Se assim é, então é preciso prescindir deles antes que eles se instalem. Aquele que manda num quintal pequeno, pode vir a julgar-se dono de uma herdade porque ganha cadeira discricionária. Foi assim que se deu o desgaste da maioria de Cavaco Silva, onde qualquer empregado subalterno se passeava no seu espaço como se fosse diretor-geral. Que o PS não perca pelas secretarias de serviço público, aquilo que ganhou nas urnas. Se a regionalização for um facto a consumar, atenção, muita atenção, não vão faltar “partidários de longa data” a fazerem-se aos lugares; cabe ao PS nomear os mais capazes em vez dos mais audazes. A comunicação social estará atenta, os partidos da oposição não dormem, os portugueses são juízes austeros e não perdoam aos padrinhos que dão a fatia mais gorda aos seus afilhados, simplesmente porque são afilhados. Quatro anos de governação é a vitória da estabilidade governativa. E esta não pode ser manchada por compadrios herdados do caciquismo. Os lugares são para os melhores, mas os melhores não pedem lugares.
Autor: Paulo Fafe