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NA MORTE DE UM HOMEM BOM DE BARCELOS

Na antevéspera do Natal, foi a enterrar o meu querido amigo José Macedo Gomes, o Zé Pérola, como por todos era conhecido.

Arrebatado deste mundo pela furibunda pandemia que nos assola, a sua morte deixou um rasto de consternação geral em Barcelos, terra onde nasceu e viveu e que sempre muito amou, envolvendo os seus familiares e os muito amigos e conhecidos numa tristeza imensa e profunda. Todos lhe apreciavam a bondade do coração e a humildade e o altruísmo da sua singular personalidade, qualidades que lhe granjeavam grande popularidade e simpatia.

Quer enquanto simples funcionário da Companhia Hidro-Eléctrica do Norte (CHENOP) quer depois, como industrial de confeitaria, à frente de “A Colonial”, o Zé Pérola soube em todos os momentos da vida conciliar a sua actividade profissional com o serviço a múltiplas causas públicas de solidariedade social e desportivas. E não só, pois que, sem alarde nem vaidade, ajudou muita gente, com favores ou fazenda, sem esperar nada em troca.

Deu gosto ver a alegria com que, durante vinte anos, se entregou aos Bombeiros Voluntários de Barcelos, cujo quadro activo integrou e chegou a chefiar, com exemplar assiduidade, que lhe valeu algumas medalhas ou a dedicação que consagrou à Associação Humanitária dos Dadores de Sangue de Barcelos, de que foi sócio e dador durante mais de meio século e que, com o ilustre fundador, Dr. Aires Duarte, tanto ajudou a consolidar.

Mas não se ficou por aí o interesse e a acção benemérita do finado: no desporto, foi relevante a sua passagem pelo Gil Vicente Futebol Clube, distintivo a que, com alma e coração, tanto se dedicou; e na solidariedade social, acabou por deixar a sua marca indelével na Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (SCMB), de que foi irmão, mordomo do culto e membro da Mesa Administrativa.

Foi nesta última instituição que, enquanto provedor, pude apreciar a sua enorme dedicação à valência idosa, de que foi um dos responsáveis durante dois mandatos consecutivos. Numa época em que a terceira idade representava, como ainda hoje representa, um dos mais importantes sectores da SCMB, foi para mim uma enorme honra dirigir e contar com a acção do José Gomes, cuja dedicação não tinha limites, tanto em relação aos utentes como quanto às pessoas dos funcionários e colaboradores. Era raro o dia em que não visitava um dos lares da instituição.

E deixei propositadamente para o fim a sua menina dos olhos – a Real Irmandade do Senhor Bom Jesus da Cruz, cujos corpos gerentes integrou durante mais de quarenta anos.

A sua enorme devoção ao Senhor da Cruz ficou bem patente na dedicada coordenação dos trabalhos de elaboração dos belíssimos tapetes de pétalas de flores naturais que, todos os anos, embelezam o templo durante as Festas das Cruzes e que são um dos seus ex-libris.

Com efeito, desde os princípios da década de noventa do século passado, ininterruptamente, foi ele quem desempenhou tal função, com um trabalho inovador e criativo que por todos era reconhecido e enaltecido.

Não obstante todos estes predicados, nunca quis para si a luz da ribalta: preferiu sempre a modéstia e humildade da segunda linha da plateia.

Perante o belo exemplo de vida que venho de relatar e testemunhar, parece-me de inteira justiça que, tão breve quanto possível, a cidade de Barcelos homenageie a memória de tão bom e humilde cidadão, pela forma que for achada mais adequada. Não porque o próprio disso estivesse à espera. Mas porque é salutar e pedagógico exaltar gestos excepcionais de solidariedade e de cidadania.

Só dá honras quem tem honra. Ora Barcelos é terra honrada e o José Macedo Gomes foi um barcelense que demonstrou honra por tê-lo sido.

Que o Bom Jesus da Cruz guarde bem junto de si a alma deste bom e misericordioso amigo. E lhe conceda a suprema felicidade de ver a face Daquele em honra de quem tantos e tão bonitos tapetes de pétalas concebeu!


Autor: António Brochado Pedras
DM

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2 janeiro 2021