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Mundial de Futebol 2022 – A normalização da hipocrisia

Desde que em 2 de dezembro de 2010 a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) concedeu ao pequeno emirado árabe do Qatar a organização do Campeonato do Mundo de 2022, um rol de questões foi colocado à volta de tão inesperada decisão.

Das suspeitas de corrupção na atribuição do acontecimento futebolístico do ano de 2022, passando pelas condições climatéricas no pequeno país do Golfo Pérsico, impróprias para a prática da modalidade no verão, até aos problemas de exploração laboral e questões diplomáticas com os seus vizinhos, tudo foi escrutinado.

As investigações sucederam-se. Entre várias personalidades inquiridas conta-se Michel Platini, antigo presidente da UEFA (União das Federações Europeias de Futebol) e até o ex-presidente da República Francesa, Nicolas Sarcozy, foi suspeito de ter dado uma mãozinha para a atribuição do importante evento ao Qatar.

No entanto, nada fez alterar o caminho tão desejado pelas autoridades daquele país da península arábica e o Mundial de Futebol 2022 teve a sua abertura no passado domingo.

O poder do dinheiro daquele país tudo ultrapassou! O facto de ser um dos grandes produtores de petróleo e deter a terceira maior reserva de gás natural do planeta confere-lhe essa capacidade.

A sua influência em grandes clubes como Paris Saint-Germain e Barcelona estendeu-se às cúpulas do futebol mundial e não para de se estender a outros setores de atividade.

Mais uma vez, a força do vil metal se sobrepôs à violação dos direitos humanos, à exploração desumana de trabalhadores migrantes e à discriminação das mulheres na sociedade catariana. E até permitiu que o Mundial de Futebol fosse agendado para o inverno, o que nunca tinha acontecido.

Tudo é esquecido!

Continua-se a tudo consentir a quem tem gás e petróleo, armas ou dinheiro e a fechar os olhos à exploração dos mais fracos, ao espezinhar dos mais elementares direitos e à mordaça da liberdade.

Tentando serenar todas críticas à realização deste grande evento com repercussões à escala global, as autoridades do Qatar, na cerimónia de abertura, moderaram os seus discursos. Apelaram à tolerância, ao respeito pelas diferenças e anunciaram abertura a algumas liberdades.

Pode ser um sinal de bom augúrio e um modo de pagar tanta complacência. Porém, só o futuro poderá comprovar se este comportamento representa uma verdadeira viragem, ou se é apenas circunstancial para fazer serenar as vozes mais críticas.

Tudo o que pudemos testemunhar ao longo dos últimos doze anos que culminou com a cerimónia de abertura no passado domingo e com o jogo inaugural não deixa de configurar uma normalização da hipocrisia

Esperemos que a realização do Mundial de Futebol no Qatar seja um verdadeiro êxito e, principalmente, que funcione como uma luz e um verdadeiro despertar de consciências não só do seu povo, mas também dos seus vizinhos daquela região do Médio Oriente.

No entanto, mantenhamo-nos alerta!

Ainda em 2018 a Rússia foi a anfitriã desta importante prova desportiva e, volvidos quatro anos, parece ter virado as costas ao ocidente e a todos os valores que este cultiva e defende, não se coibindo de invadir um país soberano como a Ucrânia e de pôr em risco a segurança e a paz.

Pactuar com os inimigos da civilização e da liberdade é dar-lhes alento para prosseguirem o caminho da repressão e da tirania.

Nesta perspetiva, quando se discute a oportunidade da ida dos nossos mais altos magistrados da nação, Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República, àquele pequeno país asiático para apoiarem a nossa seleção, não deixo de ficar com muitas reservas.

Compreendendo a intenção, não posso deixar de perguntar se não seria preferível dar um apoio à distância, à semelhança do que fazem milhões de portugueses no território pátrio e outros mais espalhados pelo mundo.

Como eles, também eu desejo os maiores êxitos à nossa seleção e espero que chegue à final e possa sagrar-se campeã do mundo.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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22 novembro 2022