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Mês de Outubro, mês de Nossa Senhora do Rosário. Uma história!

Já lá vão bastantes anos – a vida não pára! Depois de muito tempo, reencontrei um velho amigo, que comigo partilhou de bons momentos de muita amizade e camaradagem. Contou-me uma história curiosa, que eu já não me recordava, e que se reportava aos nossos anos de universidade: Ele, na Faculdade de Direito, eu, na de Letras, que se situavam em frente uma da outra.

Lembrou-me que um belo dia, depois de nos termos conhecido vários meses atrás, eu o tinha convidado para um evento a que não achou graça nenhuma. Nada mais, nada menos: fazermos uma espécie de passeio até a um santuário mariano dos arredores da cidade onde vivíamos. Estávamos neste mês de Outubro, mês do Rosário.

Num primeiro momento, perguntou-me de que constava concretamente: queria saber mais pormenores, para me responder sim ou não, com a sua habitual desenvoltura. Expliquei-lhe, julgo que com franqueza e simplicidade, os interiores dessa nossa jornada. “Mas vamos de autocarro?” Respondi-lhe que não. Apanharíamos o comboio que nos levaria até à aldeia mais próxima desse santuário e, depois, como bons romeiros, calcorrearíamos dois ou três quilómetros pelo nosso pé, até chegarmos ao final da jornada. “Tudo bem”, respondeu. “Mas, pelo caminho, o que fazemos?”

Expliquei-lhe com mais objectividade que poderíamos rezar um Terço à ida, um segundo no referido santuário, e outro no regresso, até a apanhar de novo o comboio de volta à cidade.

Fez uma cara de “poucos amigos”. Não disse que não, nem que sim. Parou no meio do passeio, olhou-me bem nos olhos e exclamou: “Isso é uma chatice de primeira!” Neste momento, foi interrompido por uma senhora bastante corpulenta, que não podia avançar com o meu amigo parado naquele lugar de pouca largura. Olhou-a com surpresa e ficou estarrecido quando a ouviu comentar: “Chatice é o senhor parar no meio do passeio e impedir o andamento de quem tem que fazer! Ele há cada uma!”

Pessoa delicada, pediu-lhe desculpa, mas a senhora não era para brincadeiras: “Veja o que faz e o que diz! Tenha vergonha e não incomode quem tem de andar e não pode esperar que as “chatices” dos outros tornem a sua vida mais difícil e chata!” O meu amigo voltou a pedir desculpa delicadamente, mas não se conteve e comentou em alto e bom som: “Ainda bem que não é minha sogra!” O episódio acabou aqui, mas a irritação da senhora continuou com lamúrias algo inconvenientes, que se deixaram de entender, a pouco e pouco, com o seu afastamento progressivo do sítio em que nos encontrávamos.

Então?”, perguntei. “Então, o quê?, inquiriu algo estremunhado. “A ida ao Santuário...” Ah, é verdade”. Fez uma cara de poucos amigos. Continuou, meio especado, no lugar onde estava, mas, ao perceber que impedia a passagem de transeuntes, começou a andar, pedindo-me para o acompanhar. “Sabes, tenho uma má recordação dos terços... Lá em casa a minha mãe e todos rezávamos. Eu era pequeno. E não gostava nada. Sempre me dava o sono ao fim de cinco Ave Marias. Mas a minha mãe, que me conhecia as manhas todas, tocava-me no braço e eu lá continuava, contrariado...Enfim, deixa-me pensar. É certo que desde que comecei a namorar a Mariana, tenho-a acompanhado, às vezes, aos domingos, à Missa. Mas até agora, nada de terços... E mesmo a Missa, só vou quando ela me leva... Enfim, tenho de pensar... E tu reza lá umas Ave Marias a Nossa Senhora para me convencer a ir contigo (Aprendi isto com a minha mãe, murmurou-me em surdina)... Telefona-me no próximo fim-de-semana”.

Eu assim fiz. A resposta foi positiva. Mas com uma observação: “Eu falei no assunto à Mariana... Ficou radiante e disse-me que iria rezar um terço todos os dias para eu ir contigo. Isto e mais as tuas Ave Marias estão-me a lixar!”

A nossa passeata até ao santuário correu, como costuma dizer-se, “assim-assim”. O meu amigo já não sabia rezar a Ave Maria e o Pai Nosso. Só se lembrava do Glória “por ser mais pequenina e não exigir tanto esforço de memória”, como me comentou. Despedimo-nos, no final. Fiquei com a sensação de que teria sido mais prudente não o levar a rezar tantas Ave Marias. Disse adeus secamente. Fiquei com a sensação de que só por ser um amigo de verdade aceitou o meu convite. E pensei não falar com ele senão em Novembro, de modo a que se esquecesse desta ocorrência. Passados três semanas, recebi um telefonema seu. Atendi com certo receio, pensando que me iria recriminar pelo convite ao santuário. Todo o contrário. Sem mais, explicou: “O teu convite chateou-me muito. Mas, desde então, com o livrinho de orações que me emprestaste, comecei a rezar o terço todos os dias. Já sei de cor a Ave Maria e o Pai nosso. Mais: já não é preciso a “muleta” da Mariana para ir à Missa aos domingos...”


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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10 outubro 2020