twitter

Menino, onde estás?

Começou o Natal. Vemo-lo nas grandes superfícies, nas ruas, nos lugares públicos e praças e em nossas casas. É feérico festim de luzes. É frenético “convite” ao gasto; é a quadra destinada aos presentes. Comemora-se um Natal rico de um Menino que nasceu pobre!

O Natal é sempre uma época revestida de encantamentos: os velhos regressam às suas memórias de infância e os mais novos recebem coisas. A história do presépio tinha um encanto e uma magia que transcendia o mundo.

Agora as estórias andam sempre à volta do barbudo pai natal: uma figura simpática que vem da Lapónia, viajando pelos espaços siderais em trenó puxado a renas, trazendo às costas um saco prenhe de ricas prendas. As prendas já não descem pelas chaminés trazidas pelo Menino; são deixadas ao pé do pinheiro, trazidas pelo pai natal; já não cabem no sapatinho.

Os símbolos fortes do Natal de hoje, são, assim, o pai natal, as prendas e um pinheiro ou abeto de plástico. Onde está o Menino que o não vejo? O dia de anos do Menino está há muito convencionado ser festejado no dia 25 de Dezembro. É o seu dia solene, o seu dia de anos.

O presépio, que é a figuração deste nascimento, praticamente já não existe em lugares públicos, nem nas nossas casas, a não ser em formas de design que transformou uma manjedoura pobre, em artefacto de luxo.

Olhando para a “árvore de natal” que temos em frente às Arcadas, miro as milhentas luzes que iluminam aquele cone que pretende ser a sofisticação de um pinheiro ou abeto e fico a pensar: não poderíamos ter, no seu lugar, um presépio, que avultasse de dia e luzisse de noite? Mesmo de longe, distinguiríamos Nossa Senhora, S. José e o Menino.

Assim, a cruz que brilha no cimo do Picoto (e muito bem) lembraria a que, biblicamente, guiou os reis magos até ao Menino. Será desejo louco? Como me parece que Braga se distinguiria das demais cidades! Todas têm uma árvore e nenhuma tem um presépio! O pai natal não faz anos; quem faz anos é o Menino Jesus; o pai natal não desperta qualquer identificação de proximidade íntima como desperta o filho de Maria e José.

Nós, que adorávamos os nossos pais, vemo-los na similitude deste casal. Nem o pinheiro tem a meiguice das palhinhas onde está deitado o Menino Deus!

Lembro-me daquele menino pobre que “roubou” o Menino do presépio da sua igreja rural e O levou para sua casa para agasalhá-lO nos cobertores da sua cama. Isto não representa apenas a doçura de uma criança, que assumiu sentimentos de piedade para com uma criança que regelava; sentimentos despertos, obviamente, pela narrativa do Nascimento, mas também sentimentos de solidariedade, compaixão e ternura; os valores inculcados em criança, são a base do caráter de adulto.

“As almas infantis são brandas como a neve/são pérolas de leite em urnas virginais/tudo quanto se grava e ali se escreve/cristaliza em seguida e não se apaga mais, disse o poeta dos Simples. Mas se o Natal se resume às prendas do pai natal, instala-se, desde cedo, na criança, o interesse material das coisas; perante ele, fenecem os valores da ternura, adrede a riqueza expulsará os sentimentos, a satisfação do possível converter-se-á em ambição e a insatisfação transformar-se-á em ambição constante.

Nunca nada será bastante para quem tem tudo tão precocemente. Para quê superar dificuldades se o chão não tem pedras para o tropeço, ou a alegria da superação? O presépio do Menino Jesus está na ternura das nossas almas; o pai natal está nas compras dos supermercados.

Desejo a todos um santo Natal, um dia, na companhia do Menino , (re)aparecido em Braga. Façam do pinheiro um bom canhoto de lareira e do pai natal um ícone publicitário.

 
Autor: Paulo Fafe
DM

DM

11 dezembro 2017