Não sei se estamos preparados para o mau tempo que aí vem. Não o meteorológico, apesar de também ele ter implicações na nossa vida, mas o que se refere ao custo de vida. A inflação continua imparável – já está na casa dos dois dígitos –, e é preciso fazê-la descer até um mínimo razoável, sob pena da situação desaguar numa recessão. A alta brutal de preços está a ser comparada a uma "pandemia" que "faz vítimas todos os dias" (João Vieira Pereira, Expresso de 4 de Novembro). Para a superar, há quem entenda que alguns morram devagarinho, como parecem preferir António Costa, Fernando Medina e Marcelo Rebelo de Sousa, e os que entendem que o remédio – subida das taxas de juro – deve poupar no número de mortes, matando mais depressa, embora acabando com o flagelo mais cedo, como propõe Centeno, o governador do Banco de Portugal, que segue a orientação do Banco Central Europeu (BCE). As razões são fortes em ambas as perspectivas, mas, pessoalmente, inclino-me para a segunda das teses. É incontornável que qualquer das soluções que venha a ser seguida vai fazer vítimas - maior dificuldade em adquirir bens essenciais por muito mais pessoas, mais falências individuais e de empresas e mais desemprego - mas a melhor alternativa parece ser a do BCE, ainda que este já devesse ter promovido há mais tempo, por mais que nos custe, a solução que agora preconiza. É preciso, com toda a urgência, controlar os preços para que a probabilidade de aparecer no horizonte uma grave recessão diminua significativamente.
Seja qual for o caminho seguido pelo Executivo, não parece que este possa deixar de controlar os preços, nem que seja a contragosto. É que alguns estão a subir, sem que a explicação esteja no aumento do preço dos combustíveis. As estatísticas oficiais da inflação evidenciam que há bens essenciais que sofreram um aumento a rondar os 50%, o que é inusitado. Alguma coisa não está a funcionar bem e cabe ao governo perceber as razões para tal e actuar. Não pode, de jeito nenhum, contentar-se em atribuir uns apoios pontuais, necessários, é verdade, mas que só por si também ajudam a esconder a realidade, como de outras vezes e aqui implicando-se igualmente outros governos.
António Costa e o seu ministro das Finanças, assim como o Presidente da República, não têm razão nesta defesa do não aumento das taxas de juro. É-lhes mais fácil o caminho que defendem e até mais popular, mas não podem ir por aí. De resto, a crítica que fazem ao BCE é injusta. No passado recente foi a baixa taxa de juros do Banco Central que promoveu sucesso ao primeiro-ministro numa altura em que a conjuntura lhe era desfavorável, já para não falar das enormes poupanças orçamentais conseguidas e de acréscimo de receitas, nomeadamente, por via da distribuição de dividendos por parte do Banco de Portugal. A melhor maneira de se criar uma crise social sem precedentes é continuar a defender que as taxas de juro não devem subir. O processo mais rápido para a evitar é não perder mais tempo e accionar os mecanismos para que a procure baixe até que se extingam os factores da espiral inflacionista. Isto, é claro, sem deixar de se proteger as famílias que já sofrem demais com a situação.
2. Por mau tempo parece estar a passar o partido Iniciativa Liberal, depois da indisponibilidade de Cotrim de Figueiredo para continuar à frente da força partidária que ajudou a reconfigurar a direita no espectro político do país. Uma baixa de peso, de consequências imprevisíveis, a avaliar dentro de algum tempo nas sondagens e a confirmar no próximo acto eleitoral. Evidentemente que um partido não é um líder, mas os eleitores habituaram-se a ver em Cotrim de Figueiredo um político diferente, inovador, muito determinado e coerente e, além do mais, muito sério, capaz de dar um contributo positivo no sentido de alterar a situação de marasmo por que passa a direita em Portugal. Não vai ser fácil manter e até acrescer a popularidade deste partido junto do eleitorado e parece mais difícil a constituição de uma alternativa governativa. O Partido Socialista (PS), com Costa ou com outro secretário-geral, pode sempre voltar a considerar no futuro (não se crê que volte a conseguir uma maioria absoluta no Parlamento nas próximas legislativas) uma convergência com a restante esquerda.
Autor: Luís Martins
Mau tempo
DM
8 novembro 2022