A Assembleia da nossa República acaba de regulamentar os requisitos e procedimentos da eufemística e impropriamente chamada «morte medicamente assistida».
Quando o país cambaleia a sair de uma crise sanitária, económica e social sem precedentes; quando os seus velhos (a sua memória) vivem em clausura, isolados de alegrias e afectos, receando pela «sua vez» na lista negra dos mais ameaçados; quando o luto amargura a saudade de tantas famílias; quando médicos e enfermeiros lutam até à exaustão para salvar vidas com o risco e mesmo o sacrifício das suas; quando milhares de doentes lutam bravamente pela vida; quando, diariamente, se detectam mais de dezasseis mil novas vítimas da Covid 19; quando esta continua a matar trezentas pessoas por dia; quando em Portugal cresce a pobreza, o desemprego, as insolvência de empregadores; quando, enfim, uma pandemia varre a Pátria como um cavaleiro do Apocalipse, que fazem os deputados, os representantes deste povo sofredor e tão sofrido?
Com um sadismo travestido de compaixão, discutem e apuram as minúcias com que se pode e deve matar quem deseja ser morto – ou a quem tal desejo seja atribuído. Para eles, no momento que vivemos, nada é mais oportuno, nem mais urgente nem mais premente.
Não re-discuto aqui o dilema «pró» ou «contra» eutanásia. Isso são contos largos que não cabem neste espaço e, de resto, matéria já largamente debatida em «fora» mais especializados.
Mas questiono – e julgo que, comigo, muitos portugueses – a oportunidade. A oportunidade de os representantes do povo legislarem sobre a morte quando tantos dos seus representados lutam tão avidamente pela vida.
Independentemente da matéria legislada, o momento escolhido – o momento em si mesmo – é um insulto aos mortos e a todos os que. no mesmo momento, lutam pela vida – pela sua ou pela do Outro.
Ao imaginar a solicitude dos nossos deputados a elaborarem esta matéria neste momento, ocorre-me ao pensamento um verso de Pascoais: «Eis o momento da extrema-unção da luz».
Que a memória de Antero de Quental me perdoe: pode a lei ser a maravilha que os seus apoiantes lhe atribuem. A data escolhida para o seu parturejamento é de muito pouco senso e de muito mau gosto.
Autor: M. Moura Pacheco
MAU SENSO E MAU GOSTO
DM
30 janeiro 2021