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Linhas vermelhas

A reação de Donald Trump aos resultados eleitorais da semana passado na USA é caraterística de quem se julgava dono do mundo; vê-se apeado dessa convicção e arranja desculpas delirantes para o fracasso; não se importa com a imagem de seu país, não respeita os valores democráticos porque o delírio leva-o ao engano da realidade: perdeu as eleições e ele entrou em fase de negação. Ele diz que foi roubado. Os tribunais dirão de sua justiça. Era lapa agarrada ao penedo. Esta é a linha vermelha de Trump. Outra reação com interesse de análise, deu-se cá em Portugal, nos Açores. As eleições deram a maioria à direita e acabou com o reinado de 24 anos de predominância do PS. O facto do Chega se ter disponibilizado a viabilizar um governo de Direita, pôs o PS nacional em estado de histeria. Diz que o PSD ultrapassou a linha vermelha ao consentir que um partido da extrema direita, o Chega, desse cobertura parlamentar a um governo açoriano. O Chega é um partido de extrema-direita, logo antidemocrático. Mas pergunto: mas o PCP ou o BE são partidos democráticos? Ou fazem apenas o jogo democrático porque estão inseridos em regimes democráticos? Onde está a democracia na China? Na Coreia do Norte, na Venezuela? Na Rússia? E então a linha vermelha traçada por António Costa não existe para estes partidos totalitários, e só existe para o Chega da extrema direita? Não sou nada próximo das ideologias do Chega, mas estou à mesma distância de rejeição dos partidos totalitários da esquerda, porque, nestes dois extremos, não encontro o mínimo respeito pela individualidade humana. O homem que não pode dizer não, é um papagaio. O meu pensamento não me permite ter dois pesos e duas medidas; se há uma medida benévola para o marxismo e trotskismo, também a deve haver para o partido da extrema direita, a não ser que queiramos institucionalizar uma linha vermelha entre eles, e dizer que a extrema esquerda é virtuosa e a extrema direita é pecaminosa. Todo o maniqueísmo é xenófobo. Xenófobo não é apenas aquele que não aceita os ciganos ou imigrantes. Se fosse Maquiavel talvez dissesse, faz da democracia uma verdade, se te dá jeito. O que me pareceu da reação do PS continental quanto à geringonça de direita nos Açores, é que está a beber a mistura amarga que deu a beber ao PSD quando ganhou as eleições e foi a geringonça de esquerda a governar. O amargo não tem bom paladar, e lá vem um dia em que temos de beber pela mesma caneca. Mas para além deste amargo de boca, aquilo que se perfila, na mente do PS continental, é a possibilidade do Chega vir a apoiar um governo do centro-direita nas próximas eleições legislativas que se perfilam como antecipadas. Estamos numa fase de parlamentarismo; quem governa são as maiorias e não quem teve mais votos. Ora, este exemplo dos Açores traz esta possibilidade à nossa realidade parlamentar, onde as maiorias são frágeis e, antes que isso aconteça, o primeiro-ministro exorciza a aliança da direita, colocando-a para lá duma linha vermelha que ele traçou e que, como o equador, não passa de uma linha imaginária. E depois cada um é que sabe as linhas com que se cose. Em democracia “é o povo quem mais ordena”. O PS não pode julgar-se guardião da democracia, porque todos nós a guardamos com firmeza. É o povo com o seu voto quem melhor a defende.


Autor: Paulo Fafe
DM

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16 novembro 2020