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Quantos de nós terão uma avó Leonilde ?). Eu tenho. E uma tia-avó Dejanira? Também tenho… Estranho tema para trazer aqui hoje, a todos quantos isto lerem, uma vez que decerto nenhum deles terá ao mesmo tempo uma avó Leonilde e uma tia-avó Dejanira, como é o meu caso. Mas vou passar a explicar porque escolhi este estranho “não-tema” para aqui discorrer hoje.
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Uma notícia funerária, uma extraordinária coincidência). Realmente, Leonilde e Dejanira são dois nomes raros. E no dia 12-12-2020, ao folhear o Diário do Minho, na necrologia (pag. 32) deparei-me com a notícia do óbito de duas senhoras, a cujas famílias daqui endereço, claro, os meus maiores sentimentos de (algo perplexo) pesar. A Dejanira Dias Lopes (m. aos 93 anos, em Palmeira); e a Leonilde Paulino de Abreu Borges da Costa (m. aos 94 anos, em Braga). Singular coincidência que, aqui na região de Braga, tenham na mesma altura falecido duas senhoras que tinham os raríssimos 1.º nomes da minha avó materna e de sua irmã mais velha… E, como falar dos mortos é dar-lhes vida, vou recordar aqui algo da sua história pessoal. Elas que também faleceram nonagenárias: a minha avó com 97; e sua irmã, salvo erro, com 96.
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Eram filhas de Vicente António da Silva Coelho). O pai de Leonilde e Dejanira (e de muitos outros filhos) foi um dos meus 2 bisavós maternos (o outro era de Coimbra). Foi toda a vida professor primário e faleceu antes de 1970, com 92 anos. Era natural de Fiães da Feira, terra onde os historiadores situam a lusitânica Langóbriga (dos Turduli Veteri). E casou noutra freguesia feirense, Travanca, pátria de futuros vários ciclistas campeões (os Joaquim Andrade, pai e filho; e Eduardo Correia); e terra da bisavó (Felismina) do 3 vezes olímpico voleibolista João Brenha. Este último é meu primo, dado que a minha bisavó (Joaquina, esposa do prof. Vicente) era irmã da citada bisavó dele. Quando, na sequência do reles Regicídio contra D. Carlos, seu filho D. Manuel visitou o norte, a Vila da Feira escolheu o meu bisavó Vicente para lhe ler um dos discursos de boas-vindas. Era um homem com mais de 1,80m (à época, raro), olhos azuis encovados, cabelo preto, bigode e sobrancelhas abundantes, polemista de fina ironia, violinista, campeão local do jogo do pau, caçador… e até tinha cavalo. Eu, que ainda o conheci encanecido, lembro as suas fortes parecenças com Bismarck. Não no carácter (Bismarck era um génio político que doseava o ser calmo e sábio com o ser brutal). O meu bisavô era um homem reservado, irónico, criticador (mas muito prudente, na vida). E um homem de sorte. Ainda novo, um tio travanquense de sua mulher, morreu sem herdeiros em Jaguarão (Rio Grande do Sul). E deixou-lhe uma data de casas. Porém, Vicente, com medo de atravessar o mar; e das ameaças de morte recebidas daquela gente da fronteira, mandou um representante que negociou tudo por um valioso e grande açafate de ouro. Nos anos 50, recebe metade de outra grande herança. A qual andou nos tribunais em Moçambique e Lisboa; era de seu irmão Manuel, notável comerciante com fazendas no Chibuto e na Manhiça e um grande supermercado e armazém na capital (a firma “Guerreiro e Castro”).
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O parentesco com o deputado dr. Elísio de Castro). O meu bisavô era filho de um Manuel S. Coelho (da casa de Vilar, Fiães); e de uma Ana Mª de Castro (casa do Regadio, Fiães). Por sua mãe era então primo-direito do deputado dr. Elísio de Castro, cujo filho casou com a única filha do famoso Afonso Costa, que visitou na prisão e a quem foi fiel. Elísio de Castro (1869-1956) nasceu e morreu no Porto; era maçónico desde 1899, pres. da Câmara da Feira em 1910, opositor a Salazar, etc.. Curiosamente, em 1974, o pres. da Câmara da Feira, não eleito, foi por 1 ano, um outro filho de Vicente, o meu tio-avô (e padrinho), o médico Arnaldo Santos Coelho. No intervalo, na época salazarista, fez 2 mandatos camarários o elegante dr. Domingos Coelho (católico e amigo de Mª Lurdes Pintassilgo), primo do dr. Arnaldo…
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A imaginação onomástica do prof. Vicente). Realmente (e em contraste com a “pobreza” que se vê hoje por aí…), Vicente baptizou os seus 8 filhos, de Dejanira (n.1901), Laurentino, Leonilde, Elísio, Cirene, Hermínia, Arnaldo e Flávio. Dejanira é nome de origem grega (e era a guerreira mulher de Hércules). Leonilde é germânico e quer dizer “leoa combatente, nobre”.
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As vidas de Leonilde e Dejanira). A minha avó, nascida em Travanca, e muito bonita, formou-se no Porto como prof. primária e viveu a maior parte da vida em Ovar, onde casara com o médico e delegado de saúde local (além de político salazarista) dr. Álvaro Esperança, com raízes em Santarém e Coimbra. Foi amiga íntima da avó do dr. Carlos Encarnação e da mãe do cantor Manuel Freire. Dejanira casou na Feira com o vizinho João Resende (freg.ª de Souto), homem baixo e careca mas com fama de duro (o “Joãozinho”, na voz dos filhos). Foi para o planalto do Huambo (Angola) comerciar, com as dificuldades que se adivinham. Mais tarde mudaram-se para Lourenço Marques, onde a vida correu bem melhor. Foi mãe de Fernando, Mimi, dr.ª Fernanda, outro Elísio e da dr.ª Idalinda (falecida em Dezembro passado). Dejanira foi das tais pessoas que esteve quase morta (aos 95 anos) e “viu” o “tal túnel da luz”. Sobreviveu lúcida mais 1 ano.
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Gandhi viveu meses no palácio de Aga-Khan). Vi noutro dia, na RTP Memória, o filme biográfico sobre o notável Gandhi-ji. Aí se documenta aquele facto. Ora, como referi aqui no DM (“Um ressuscitado e não poucos óbitos”, de 22-12-2020), a dr.ª Idalinda (filha de Dejanira) acolheu no Mussoril, o filho e herdeiro de Aga Khan, casado com a actriz Ava Gardner. Honra grande…
Autor: Eduardo Tomás Alves