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Jornalismo de soluções

Por razões familiares, passei o último fim de semana nos corredores do Hospital Dr. José de Almeida, em Cascais. Fiquei deveras impressionado com a humanidade e dedicação com que a esmagadora maioria dos enfermeiros e pessoal auxiliar tratava os pacientes e lidava com os familiares.

Porém, nos últimos anos, quase só tenho ouvido falar da falta de condições dalgumas unidades hospitalares, do êxodo massivo dos enfermeiros portugueses – 12 000 saídas entre 2009 e 2015 – ou das greves em prol de uma revisão da carreira e da grelha salarial.

Pena é que, na comunicação social, estas questões de suma importância quase nunca sejam devidamente contextualizadas com um olhar mais demorado sobre a profissão e as questões da saúde.

As boas notícias entediam e as más provocam uma curiosidade viral, escrevia recentemente José Tolentino Mendonça (Expresso, 29/12/18). Diz o padre-poeta, “não há patologia pior do que esse definhar da alma, esse olhar cheio de preconceitos que depois se torna pequeno e amargo, esse juízo que se deixa capturar no defeito e no peso da imperfeição e depois não voa, depois ignora o que seja a leveza”.

Todavia, depois do movimento do jornalismo cívico, nascido na década de 90, nos Estados Unidos, o jornalismo de soluções,construtivoou de impactotem vindo a afirmar-se paulatinamente na análise de práticas e iniciativas que procuram dar resposta a problemas sociais, económicos e do meio ambiente.

Trata-se de olhar – com rigor e sem intenções meramente mercantilistas – para o modo como cidadãos, instituições, empresas, comunidades e grupos sociais se empenham em encontrar e implementar soluções eficazes.

O movimento tem vindo a ganhar adeptos. Em 2007, as redacções doNew York Times(USA) e do grupo Berlingske Media(Dinamarca) defendiam a implementação dessa abordagem jornalística que não se fica pela simples denúncia dos problemas, mas ouve quem se empenha pela sua resolução.

Não se trata de “dizer bem” apenas, de silenciar as disfunções, de dar uma visão cor-de-rosa da realidade ou de idolatrar heróis de um dia. E muito menos se pretende transformar o jornalismo numa prática que se resume a distribuir directrizes aos outros membros do corpo social.

Apresentando-se como alternativa ao tratamento tradicional da informação em função de uma agenda mediática ditada pelas cúpulas, um tal modelo bebe a sua inspiração no jornalismo de investigação, com o intuito de dar uma visão mais completa da realidade e de potenciar um maior compromisso social por parte dos cidadãos.

Um pouco por todo o mundo foram assomando projectos como Reportersd’Espoirs(França, 2004), Solutions Reporting Fellowships Reporters-Tyee(Canada, 2006), Sparknews(França, 2012), Solutions Journalism Network(USA, 2013) ou ainda o Impact Journalism dayou o Libé des solutions, edição anual do diário Libérationdedicada a acções e projectos inovadores em matéria de educação, culinária, gestão de resíduos e turismo alternativo.

O jornalismo de soluções tem vindo igualmente a implementar-se a nível local, como acontece ainda em França com as experiências dos grupos Centre Francee dos títulos Le Parisien, MarsActu, e Nice Matin. Tais iniciativas editoriais – ainda incipientes – propõem-se fortalecer as relações com os leitores e o território local, assumindo-se também como um modelo editorial e económico de futuro para o jornalismo digital.

Os media enfrentam uma séria crise de credibilidade. O espaço público é invadido por notícias fúteis e/ou angustiantes. “Não há exercício mais esterilizante – escreve ainda Tolentino Mendonça – do que essa espécie de ressentimento expresso como anátema em relação à vida, esse totalitarismo da lamúria que, sem darmos conta, nos asfixia, essa incapacidade de romper com a engrenagem da maldição sobre tudo e sobre todos, e a que nem nós próprios escapamos”. E se procurássemos soluções?


Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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19 janeiro 2019