Já lá vão algumas semanas sobre o começo do ano escolar em Portugal. Nas escolas públicas, segundo foi noticiado, havia 178 lugares docentes por preencher. Não sei, actualmente, se esse problema já foi resolvido, ou se continua a haver disciplinas escolares que não são ministradas.
Antes de ser sacerdote, durante perto de vinte anos dediquei-me ao ensino, quer na escola pública, quer na escola privada.
Nesta última, tive trabalho de chefia durante doze anos (na primeira, só durante alguns meses) e, devo confessar, que nem sequer me passou pela ideia de director de uma escola particular começar as aulas sem ter alguns professores. Certamente que as exigências são diferentes, porque num centro de ensino particular as contas têm de ser muito bem ponderadas, sob pena de poder haver um colapso económico e de os pais, se não se sentirem satisfeitos com o que a escola fornece aos seus filhos, os tirem desse estabelecimento.
Guardo gratas recordações da escola pública, embora a minha actividade tenha conhecido anos complexos de trabalho e de estabilidade. Refiro-me àqueles que se enfrentaram com o 25 de Abril, que abriu a toda a gente um clima diferente de liberdade, de actividade profissional e também de alguma incerteza em relação ao modo de proceder. Recordo, por exemplo, várias longas reuniões a que nós (docentes) éramos chamados, que duravam até altas horas da madrugada, onde as opiniões diferentes sobre assuntos variados se discutiam com certa veemência e, confesso, não me recordo já com rigor das temáticas. Apenas me vem à memória a surpresa dolorosa que senti, quando, terminada uma dessas noitadas de discussão bastante acesa, se procedeu a uma votação para um novo conselho directivo provisório (o que estivera até aí demitiu-se por exaustão) e fui eleito como um dos seus elementos, para o qual nem desejava nem me encontrava verdadeiramente preparado para o enfrentar. Mas não era permitido recusar se se fosse um dos escolhidos, porque, como alguém fez notar, representava uma atitude anti-democrática.
Quando, no dia seguinte, ensonado e mal dormido, cheguei à escola para dar as minhas aulas, fui abordado por uma delegação de contínuos – era assim que se chamava a um grupo de funcionários que aí desempenhava diversas funções – a fim de eu tomar consciência de alguns dos seus graves problemas, que era necessário resolver com urgência. Felizmente, tudo se pôde acalmar e o que era necessário fazer-se, com boa vontade, chegou ao seu termo.
No ensino privado permaneci mais anos e, além disso, tendo de enfrentar toda a responsabilidade de ser iniciador e dirigente de uma nova escola. E, neste horizonte, de duas uma, ou se arregaçam as mangas e se dá o tudo por tudo para que as coisas corram da melhor maneira, ou rapidamente se desmorona o que foi uma ideia interessante num tristonho fracasso. E de um modo rotundo.
Por isso, referia atrás que, ao começar o ano escolar, era impensável para mim que cada disciplina não tivesse o seu professor desde o primeiro dia de aulas. Neste aspecto, ainda que reconheça que ser ministro da Educação é diferente de ser membro directivo dum estabelecimento privado, revela uma manifestação de incapacidade da gestão do mundo pedagógico do nosso país. As razões que levam a que esta lúgubre situação suceda com frequência – nos últimos anos, de forma notória – devem ser ponderadas com profundidade e resolvidas atempadamente. Se o ensino público se destina a todos os portugueses, o que oferece a não poucos, pelo menos nos primeiros tempos do ano escolar, é uma sensação de impotência de quem dirige, ou de insensibilidade em relação a quem deve estar ocupado nas suas salas de aulas e se encontra, na escola que frequenta, com “feriados” crónicos e repetidos. Tudo isto revela buracos ou ocos de eficiência pela parte de quem tem a seu cargo gerir a população escolar mais numerosa em Portugal.
Nos “media” nacionais, saiu a notícia de que, no presente ano lectivo, deverão reformar-se cerca de dois mil professores. Oxalá que o ministério competente tenha em conta esta realidade e que, quando for a altura de deixarem os seus lugares docentes, não apareça um vazio desleixado, que prejudica, além disso, a qualidade do ensino.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva