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Ingvar Kamprad

Morreu, há dias, com 91 anos, o sueco Ingvar Kamprad; mas, a notícia, devido à ausência de mediatismo que a acompanhou nos media, com certeza que para a maioria, senão para a totalidade, dos leitores pouco ou nada traz de novo. Todavia, se lhes disser que Ingvar Kamprad foi o fundador da IKEA — loja sueca de móveis baratos que o cliente compra, leva para casa e monta e que, atualmente, está presente em 49 países – então tudo muda de figura; e, até, porque somos um destes países e a nossa cidade já possui uma loja IKEA. Pois bem, até aqui pouca ou nenhuma novidade; porém, o dono da IKEA, considerado pela revista Forbes como um dos 10 homens mais ricos do mundo, levou sempre uma vida simples, de cidadão normal, longe dos holofotes e da fama; e era, inclusive, classificado por aqueles que com ele de perto privavam como um autêntico forreta. E ao trazê-lo, hoje, aqui, apenas me move o seu modelo de vida que, de alguma forma, pode servir de exemplo e guia para muitos de nós; até porque, segundo alguma imprensa falada e escrita, este homem que foi um dos maiores empresários do mundo, aos cinco anos já demonstrava engenho e arte empresariais vendendo caixas de fósforos e postais de Natal e, aos 17 anos, aplicando algum dinheiro que tinha, criou a primeira empresa. Ademais, a quem o quisesse ouvir, Ingvar Kamprad fazia alarde em dizer que: conduziu durante vinte anos o mesmo automóvel, quando viajava era sempre em classe económica, só procurava barbeiros baratos, comprava roupa nas feiras, ficava em hotéis modestos e, sempre que possível, utilizava os transportes públicos; e, pasme-se, quando lhe foi erigida uma estátua, não cortou a fita no ato de inauguração, como é de tradição, mas desatou-a, dobrou-a bem dobrada e entregou-a ao presidente da cidade para que a voltasse a usar noutras idênticas circunstâncias. E, como corolário desta sua vida modesta e, aos olhos e compreensão de muitos dos seus conterrâneos e amigos, costumava apresentar, como testamento de um negociante de móveis, o seguinte: Não precisamos de carros extravagantes, de títulos elegantes, de uniformes sob medida ou outros símbolos de status; confiamos na nossa própria força e na nossa própria vontade. Agora, convido-os a olhar à nossa volta e verificar quantos empresários, homens de negócios e fortuna, gestores públicos ou privados, governantes e políticos comungam das ideias e da forma de vida, comedida e simples, do homem do IKEA; e, seguramente, ser-lhes-á mais difícil encontrar-um que seja, do que apanhar formigas com luvas de boxe. Porque se há coisa que eles prezam é viver mais para o ter do que para o ser, viver mais para si próprios do que para os outros, viver mais para a matéria do que para o espírito; e, assim, mostrarem a força do dinheiro que possuem em gastos excessivos e supérfluos, ignorando e mesmo desprezando o que se passa à sua volta; porque, no fundo, a sua principal preocupação está na máxima afirmação e manutenção do status social. E, mormente, nos tempos hedonistas, consumistas, materialistas e relativistas em que vivemos, onde o dinheiro é rei e senhor e comanda os desígnios dos homens e das sociedades, fazendo com que tudo gire à sua volta: por dinheiro se trafica, se escraviza, se mata, se vende a própria alma ao diabo; e tanta gente se endivida para passar férias, trocar ou comprar carro novo, mudar de mobília, enfim, comprar luxos e superfluidades. Necessariamente se precisa na nossa sociedade de empresários, homens de negócios e fortuna, gestores públicos e privados, de políticos e governantes com o sentido de vida, a estatura moral e o perfil psicológico do sueco Ingvar Kamprad; porque, só assim, viveríamos numa sociedade mais justa, mais solidária, mais humana. E poderíamos deixar de praguejar: – Porra, vai cá uma nortada! Então, ate de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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28 fevereiro 2018