1. A recente celebração dos dias de Todos os Santos e de Fiéis Defuntos leva-me a refletir sobre a Igreja que sou; a Igreja que somos.
Todos os batizados pertencemos à Igreja. Melhor dito: somo Igreja. Igreja, Povo de Deus. Igreja, família constituída por uma quantidade inumerável de irmãos.
2. Esta Igreja que somos encontra-se numa de três situações: de peregrina, de felicidade com Deus, de purificação a caminho da felicidade com Deus.
A Igreja na situação de peregrina é constituída por todos os que por cá andamos, nesta fase terrena que a vida tem.
O que chamamos morte é passagem para uma das outras situações da Igreja.
Morrer não é acabar; é terminar o fim da fase terrena e entrar ou na fase celeste ou na de purificação. A morte é fim e começo. Fim da fase terrena e começo de uma das outras fases.
3. Entre os membros da Igreja, seja qual for a situação em que se encontrem, existe a chamada Comunhão dos Santos. Entre todos pode e deve haver comunhão e comunicação, sobretudo mediante a oração de súplica, de expiação, de intercessão.
Uma das formas de sufrágio pelos mortos continua a ser a prática da esmola. O contributo com donativos para instituições que se dedicam a ajudar os mais necessitados. E nos tempos que correm bem necessário é.
O facto de sermos Igreja Peregrina, de estarmos aqui de passagem, não nos dispensa de, enquanto cá estamos, fazermos o bem. Que, na hora da partida, deixemos este mundo melhor do que o encontramos. Nada de cruzarmos os braços à espera que o comboio chegue.
4. A união que existe entre todos os membros da Igreja pode levar-nos – é uma sugestão que deixo – a reavivar um costume que em alguns meios se vai perdendo: o da oração em família. No fim do dia, com a televisão desligada e o telemóvel no silêncio, que os membros da comunidade familiar façam um tempo de oração. Por eles mesmos. Pelos familiares e amigos. Agradecendo e louvando pelo dia que termina e formulando o propósito de ir corrigindo falhas que, ao longo do dia, foram acontecendo. Lembrando os membros da família que, por qualquer motivo, se encontram ausentes. Lembrando familiares e amigos a braços com a doença, para que saibam viver cristamente o sofrimento e recuperem a saúde. Lembrando os que já partiram para uma das outras duas situações em que a Igreja que somos se encontra. Pedindo a Deus por eles ou recorrendo ao seu poder de intercessão junto de Deus em nosso favor.
5. Em muitos casos esta oração comunitária do fim do dia consistia e consiste na oração do terço. Também pode ser a leitura orante da Palavra de Deus: escolher um texto da Bíblia que, depois de lido pausadamente, se faz oração, tentando descobrir a mensagem que no referido texto Deus tem para cada um dos presentes e sobre ela conversar com Deus. Também pode ser a partilha de como decorreu o dia, convertendo essa partilha em conversa com Deus para louvar, agradecer e pedir a ajuda necessária ou o perdão de faltas cometidas.
Sem se converter em confissão pública – há coisas que são apenas entre cada um e Deus, com ou sem a mediação do sacerdote – esta oração pode ser momento de reconciliação, se porventura houve qualquer desaguisado entre os membros da família.
Em casa dos meus pais a oração da noite terminava com o pedido da Bênção ao pai e à mãe e um beijinho a cada um dos presentes.
Sugiro – e por isso abordo hoje o tema – que esta oração em família seja momento privilegiado para recordar os que partiram. É dever de justiça e de gratidão lembrá-los sempre, não apenas em Dia de Todos os Santos ou de Fiéis Defuntos.
Autor: Silva Araújo
Igreja que somos
DM
3 novembro 2022