1. No início do livro Sapiens (2014) – que citámos no texto anterior –, Harari afirma: "A era na qual a humanidade se via impotente diante de epidemias naturais provavelmente chegou ao fim". Afinal, a actual pandemia está longe de ser controlada, e o famoso historiador, em entrevistas recentes, não é tão afoito em ensinar-nos como a vencer como o fez no seu best-seller (500 páginas), em que junta ao título, De Animais a Deuses.
O professor da Universidade hebraica de Jerusalém apresenta aí um bosquejo grandioso – “História Breve da Humanidade” é o subtítulo –, de cariz interdisciplinar, em que prevalecem a biologia e as ciências da computação, com contributos da história, biologia, antropologia, economia, também da politica, religiões e arte, e considerações filosóficas (por ex., sobre a justiça e a felicidade). O livro abrange 70.000 anos da história humana, desde a primeira revolução, em que os ‘sapiens’ viveram grande parte da sua história como caçadores-colectores. Houve a Revolução Cognitiva (com o surgimento de formas de pensar e de comunicar, por mudanças genéticas), a Revolução Agrícola e a Revolução Científica (por volta de 1500, na Europa Ocidental).
2. Sem dúvida, o autor maneja habilmente uma profusão colossal de informação de vários saberes, donde apresenta uma visão total da Humanidade – qual tapeçaria vista só de cima (sem os ‘nós’ do outro lado). Todavia, a vantagem da sua obra “futurística”, escrita em amena linguagem convivial, é suscitar no leitor interrogações – donde vimos?, para onde vamos? Harari tem mais talento para vulgarizar e excitar a imaginação do leitor, nas passagens narrativas, que quando se propõe filosofar: mais convicto nas descrições que nas reflexões.
Em entrevista (2017) ao diário francês Le Monde, à questão – "Em que baseia as suas convicções?" –, respondeu simplesmente: "Tudo isso acontecerá por meio da combinação de avanços na biologia e em informática. A primeira decifra os segredos da bioquímica do corpo e do cérebro humanos; a segunda permite analisar dados múltiplos – uma tarefa que os humanos são incapazes de fazer. A descrição do homem como uma espécie de algoritmo bioquímico é o que me parece ser o pensamento dominante nos laboratórios ou entre os actores do ‘Silicon Valley’".
3. No seu grosso livro preconiza o advento de uma “nova religião dos dados”, com a formação de extensas redes de processamento, cujos algoritmos serão capazes de conhecer cada homem melhor que ele mesmo, e de controlar até os seus desejos mais íntimos; por isso crê que a grande maioria da população estará disposta a entregar-se docilmente ao controlo das máquinas, em troca de prazer e bem-estar.
Para ele, o humanismo, fruto da razão, não resistirá ao progresso tecnológico, muito menos à inteligência artificial, exponencialmente superior e que avança vertiginosamente; então, toda a decisão que se julga tomada por humanos é apenas o resultado de algoritmos bioquímicos, o livre arbítrio é negado, e as pessoas, mais que exploradas, serão descartáveis.
4. Bill Gates e Mark Zuckerberg recomendaram a obra de Harari, com aplauso; ao festim, não faltou Barack Obama, que diz ter apreciado essa "história da humanidade vista do céu" – modo incomum de caracterizar uma visão reducionista dos humanos. Seria curioso asseverar se o ex-presidente americano leu as páginas em que Harari se refere à famosa passagem da “Declaração de Independência dos Estados Unidos” que proclamou estas "verdades como evidentes em si mesmas": “todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. Ora, Yuval contraria, afirmando que "esses princípios universais só existem na imaginação fértil dos sapiens e nos mitos que inventam e contam uns aos outros", reiterando que "esses princípios não têm validade objectiva"; e "a liberdade foi algo que as pessoas inventaram e que só existe na sua imaginação". Depois, efectua uma estranha transposição dessa Declaração da Independência, em ‘linguagem biológica’.
5. Já no último capítulo, “O fim do Homo sapiens”, escreve: "os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós somos dos neandertais. Isto atendendo a que nós e os neandertais somos, pelo menos, humanos, enquanto os nossos herdeiros serão semelhantes a deuses". Se na obra há muitas outras miradas utópicas, há também tiradas distópicas, como esta (“posfácio”): "Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos". E conclui: "Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?" Estranha noção de humano e de divino, que nos fará continuar…
O autor não segue o denominado acordo ortográfico
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha