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Herói e santo

A memória litúrgica de S. Nuno de Santa Maria, no passado dia 6, recordou-me o cântico escutista: Herói e santo, Nuno imortal, valei à terra de Portugal. Desde logo, me pareceu oportuno dar a conhecer tão nobre e distinta figura da nossa história. E tanto mais porque os ventos do presente não correm de feição às figuras e acontecimentos do passado: regista-se, de facto, uma tendência para a sua supressão, num processo de silenciamento ou revisionismo que tem tanto de ignorante como de perigoso.

Nuno Álvares Pereira nasceu em Cernache do Bonjardim, concelho da Sertâ, a 24 de junho de 1360. Segundo o cronista Fernão Lopes, era filho de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital, e de Iria Gonçalves do Carvalhal. Em 1376, casou-se com Leonor de Alvim e, ao que parece, viveu algum tempo em Pedraça, Cabeceiras de Basto.

Destacou-se como o maior estratega, comandante e génio militar português de todos os tempos e assumiu um papel de relevo, na crise da sucessão de 1383-1385. Lutou pela independência do país, perante a ameaça de Castela, e venceu as três batalhas que liderou (Atoleiros, em Abril de 1384; Aljubarrota, em agosto de 1385; e Valverde, em outubro do mesmo ano), apesar de sempre ter partido para a guerra com um número de soldados inferior ao do inimigo. Comandava pelo exemplo e pelas inúmeras virtudes humanas, cristãs e militares que possuía, tornando-se patrono da Infantaria Portuguesa. A sua lealdade e dedicação granjearam-lhe diversos títulos (Condestável [comandante do exército] de Portugal, Conde de Arraiolos, de Barcelos e de Ourém) e inúmeras propriedades.

Em 1423, após a morte da esposa, entrou na Ordem do Carmo, no Convento homónimo que mandara construir, em Lisboa, como cumprimento de um voto. Tomou o nome de Irmão Nuno de Santa Maria e afirmou-se não pelos bens que possuía (desfez-se deles ao entrar para a convento), mas pela generosidade que praticava: dava esmolas e distribuía refeições aos pobres. Faleceu no convento, a 1 de novembro de 1431. Inicialmente foi lá sepultado, mas o seu túmulo ficou danificado, por altura do terramoto de 1755. A partir de 14 de agosto de 1951, os seus restos mortais encontram-se na Igreja do Santo Condestável.

A sua grandeza humana, profissional e crente aparece espelhada em Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. A 12.ª estrofe do primeiro canto chama-lhe “forte Nuno” e a 32.ª estrofe do oitavo canto, falando dele, afirma: “Ditosa Pátria que tal filho teve”.

Beatificado a 23 de janeiro de 1918, por Bento XV, foi canonizado no dia 29 de abril de 2009, por Bento XVI. É o Padroeiro do Corpo Nacional de Escutas (CNE) - Escutismo Católico Português, que o aclama de forma entusiasta, com o cântico enérgico e triunfal, atrás referido.

Não admira que a primeira leitura da eucaristia da sua memória litúrgica seja Sir 44, 1-8, o início do famoso “elogio dos antepassados” (Sir 44, 1 – 50, 21), um texto que vale a pena ler e meditar. As qualidades exaltadas dos antepassados de Israel são também as dos nossos e, muito mais, as de São Nuno de Santa Maria: glória, fama, inteligência, sagacidade, poder.

Recordá-lo, exaltá-lo e imitá-lo é um dever de todos os portugueses, dos milhares de soldados e escuteiros que o têm como patrono. É bom que assim aconteça, pois que um povo que não conhece nem valoriza a sua história e os antepassados que lhe deram corpo não é nobre nem tem futuro; um povo que não sabe de onde vem também não saberá para onde vai. A profundidade histórica e a memória coletiva dão-nos consistência e identidade, fortalecem-nos perante as ameaças do presente e projetam-nos para diante, apesar das incertezas do futuro. Na encruzilhada da nossa história presente, termino como comecei: Herói e santo, Nuno imortal, valei à terra de Portugal.

Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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9 novembro 2020