Por influência da cultura anglo-saxónica, são cada vez mais os que, entre nós, celebram o Halloween ou Dia das Bruxas, na noite de 31 de outubro. Trata-se de uma celebração pagã que parece ter tido origem entre o povo celta, assinalando no seu calendário o fim do verão, o início do Ano Novo e as boas colheitas do ano. Originalmente, chamava-se Samhain, cujo significado é precisamente “fim do verão”. Os celtas acreditavam que o início do inverno representava a aproximação entre este mundo e o mundo do além; que, por esta altura, os mortos visitavam as suas casas; e que diversas assombrações surgiam para amaldiçoar os animais e as colheitas.
Algum tempo depois, no Reino Unido, esta festa gaélica foi cristianizada pela Igreja primitiva e identificada com o Dia de Todos os Santos. É daí que, em meados do século XVIII, surge o nome Halloween, uma contração de All Hallows Eve (Véspera de Todos os Santos). Se o nome tem origem cristã, tal não acontece com os seus símbolos: as cores laranja (cor das folhas, no outono) e preto (alusão aos dias mais escuros), a lanterna de abóbora (com origem num conto celta sobre um rapaz proibido de entrar no céu e no inferno que vaga eternamente com a sua lanterna, em busca de descanso); máscaras e fantasias (os celtas acreditavam que, no dia do Samhain, esses adereços ajudavam a enganar os espíritos); esqueletos e fantasmas (para os celtas, os mortos assumiam, entre outras formas, as de esqueletos e fantasmas); e morcegos, atraídos pelas fogueiras dos festivais de Samhain.
Na noite de Halloween, as crianças mascaram-se e percorrem as ruas em grupo, batem de porta em porta e pedem guloseimas. No abrir da porta, dizem trick ot treat (“doçura ou travessura?”), uma expressão que teve origem na Grã-Bretanha e que foi popularizada nos Estados Unidos, em meados do século XX. Se não lhes derem doces ou guloseimas, sentem-se autorizadas a fazer ou a dizer uma travessura.
Sendo uma tradição muito antiga, o Halloween nunca teve, entre nós, uma particular expressão. Da nossa tradição é a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, assim como o Pão por Deus, um peditório ritual feito no dia 1 de novembro, associado ao antigo costume de colocar pão, bolos, vinho e outros alimentos nas sepulturas. O referido costume foi abolido pelo II Concílio de Braga, no ano 572, mas o peditório do Pão por Deus continuou, entre nós e em muitos outros povos. Na vizinha Galiza, assume o nome de migallo.
Em algumas regiões do nosso país, é também costume, por esta altura, os padrinhos oferecerem aos afilhados o santoro, uma espécie de pão bento, do feitio de uma tíbia.
Ainda hoje, as crianças saem à rua para pedir, de porta em porta, o Pão por Deus ou o bolinho. Recitam versos e recebem pão, bolos, romãs, nozes, tremoços, amêndoas ou castanhas que colocam dentro de sacos de pano. Com o passar do tempo, o ritual sofreu algumas alterações: as crianças que batiam à porta começaram a receber dinheiro, rebuçados ou chocolates. Na região de Lisboa, passou a recordar o terramoto que aí aconteceu, no dia 1 de novembro de 1755, e o pedido das pessoas pobres (“pão, por Deus”), nas localidades que não tinham sofrido danos.
A implantação do Halloween, em Portugal, tem vindo a dar um colorido carnavalesco a esta época e está a ameaçar a continuidade do Pão por Deus, por três motivos: substituiu os tradicionais versos por expressões vindas do inglês (trick or treat está a substituir “doçura ou travessura”); introduziu neste peditório o uso de máscaras, abóboras, teias de aranha e fatos muito semelhantes aos do Carnaval, que nunca marcaram presença no Pão por Deus; eliminou por completo a dimensão religiosa da tradição do Pão por Deus, além de ter ensombrado a Solenidade de Todos os Santos, cuja finalidade é celebrar os méritos dos que procu(ra)ram pôr em prática, na vida, a mensagem do evangelho.
Halloween ou Pão por Deus? Apesar das raízes terem algo em comum, porque sou cristão e prezo as tradições do meu povo, a escolha é evidente: Pão por Deus. Não quero ter nada a ver com bruxas e carnavais antecipados, pois pretendo celebrar Todos os Santos e promover o que faz parte da nossa cultura e tradição.
Autor: P. João Alberto Correia