Os factos são o que são; a realidade é o que é. Será, porém, que temos acesso aos factos como são e à realidade como é?
Para Anaïs Nin, «nós não vemos as coisas como são; vemos as coisas como somos».
Era bom que fôssemos sempre objectivos. Contudo, por mais esforços que façamos, consegui-lo-emos plenamente?
Com algum lastro de ironia – mas com muito fundo de verdade –, Alçada Baptista confessava que seria «objectivo» se fosse «objecto»; uma vez que é «sujeito», será sempre «subjectivo».
Quando reportamos um acontecimento ou retratamos uma pessoa, não fazemos apenas uma descrição; fazemos também – e inevitavelmente – uma interpretação.
É vital, portanto, convocar uma grande dose de ponderação e decência quando falamos de algo e – sobretudo – de alguém.
Há que evitar dois extremos, ambos danosos: a inactividade ou a indecisão e a temeridade ou a precipitação.
É a experiência – e não os arquétipos pré-formatados – que nos fornece os ingredientes basilares para o apuramento da verdade.
Todavia – e como nos avisa a composição do vocábulo –, a própria «experiência», que envolve «perícia», não está isenta de «perigo».
Ainda assim, não podemos ficar tolhidos. Até porque a verdade, desvelando-se, espera por nós.
Quando compôs a «Salve, Rainha», Hermano Contracto não desacertou quando apresentou o mundo como um «vale de lágrimas».
O que vemos, ouvimos e lemos inunda-nos de rostos carregados e almas sofridas.
Quando nos encontramos, desatamos a fustigar desapiedadamente pessoas, especialmente ausentes, como se o futuro lhes tivesse cerrado – para sempre – as portas.
Espanta que, num tempo dominado pelo efémero, abundem pronunciamentos tão definitivos.
Por contraponto, efémera – ou até inexistente – aparenta ser a eternidade, que votamos a um silêncio tumular.
Se aprendêssemos verdadeiramente a morrer, também aprenderíamos luminosamente a viver.
É que, no fundo, morremos conforme vivemos. Daí o milenar conselho de Confúcio: «Aprende a viver como deves, e saberás morrer bem».
Com efeito, só morre bem quem bem procurou viver. E viverá bem quem não pactuar com qualquer espécie de mal.
No mínimo, fiquemos com a regra de ouro. Nunca façamos aos outros o que não queremos que nos façam, a nós.
Toda a maldade tem de ser combatida. Desejavelmente, a partir da raiz, sulcando o Bem!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira