O fariseu agradeceu ser melhor do que os outros, pelo menos, do que alguns. Todos nós lhe vestimos a alma e com frequência. Se não o admitimos, é por que não fazemos um exame de consciência. Interessa-nos capitalizar o que os outros podem ver de positivo em nós e desvalorizamos os defeitos e imperfeições. Mas, a virtude não está tanto no que possamos fazer de bom, mas em admitirmos o que somos na verdade, com erros e defeitos incluídos. Na política, para que possa ser considerada nobre, essa disposição também deve ser praticada, sob pena da actividade ser conotada com o pior do maquiavalismo. Felizmente, há actores políticos que admitem as suas falhas e até retiram consequências, para si e para os que dirigem. Ao contrário, há outros que assim não procedem, fazendo uso do seu discurso para negarem pecados próprios, dos amigos e da sua organização e evidenciar o de outros e outras rivais.
Não é uma questão de opinião, mas de atitude. Há gente que não sabe estar. Que só admite virtudes próprias. Que, se algo não corre bem, arranja de imediato bodes expiatórios, não assume responsabilidades próprias e não é consequente com o que se propõe. Saber estar é governar num determinado tempo com coerência e ser honesto com os que representa, falando verdade, mesmo que isso o possa comprometer. Decidir em cima do joelho, como se costuma dizer, é decidir levianamente e isso nunca é admitido. A verdade é que quem decide não está acima de qualquer suspeita, mesmo que tenha mandato para tal.
Veja-se o que se passou na TAP. A decisão tomada, logo após a chegada de António Costa ao Governo, de desfazer o que havia sido feito pelo Executivo anterior, podia fazer sentido, atentas as razões aduzidas, nomeadamente, de que a manutenção da companhia de bandeira era estrutural para a economia portuguesa e os portugueses. Investir assim, só podia ser um bom investimento. Parecia que sim a muitos. Podia até ser a maioria dos cidadãos. Mas, o inusitado aconteceu. Depois de terem sido injectados milhares de milhões, a empresa está de novo à venda, por tuta e meia ou até de graça! Dizem as más línguas que o Partido Socialista só defendeu na altura a renacionalização da TAP por estarem em causa alguns amigos que eram fornecedores e credores da empresa, sendo que agora, como receberam entretanto o seu, já é boa a altura para a reprivatização. Se essa foi a razão, não há desculpa e pode dizer-se, com propriedade, que temos governantes que não só não sabem estar, como devem merecer censura a sério.
2. Apesar de se constatar que Passos Coelho está desligado da política activa há já algum tempo, o Presidente quis trazê-lo para a ribalta. Considero que foi inoportuno trazê-lo de novo à cena. Aliás, parece que nem o visado apreciou a ousadia. O Presidente não soube estar quando o quis fazer. Tinha, ao que se sabe, algum truque na manga. Não soube estar, nem mesmo que o tempo fosse novo e houvesse vantagem clara para os portugueses. Na altura da sua governação, o ex- Primeiro Ministro também falhou ao não saber estar com o cumprimento das promessas que fez ao eleitorado. Por mim, e estou certo que para muitos, não lhe volto a dar o meu voto, seja para o Governo ou haja uma candidatura sua à Presidência da República.
3. Qualquer desmando governativo ou na Assembleia da República é não saber estar num regime democrático. A democracia só convive bem com uma maioria absoluta quando se respeitam também as minorias. E se estas sentem que é preciso controlar as maiorias, devem poder fazê-lo sem impedimentos próprios da tirania. Têm sido inviabilizadas recentemente, depois das últimas legislativas, audições parlamentares a governantes promovidas por partidos da oposição. Impedir esse controlo é não saber estar em democracia. A maioria absoluta, como bem prega Frei Tomás Costa, não pode significar poder absoluto.
Autor: Luís Martins