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Futuro de incerteza e medo que nos espera

Os tempos difíceis, complexos e insólitos que atravessamos reservam-nos um futuro de incerteza e medo, sobretudo resultante da crise económica e social que se vislumbra; e esta é sempre uma consequência inevitável de qualquer guerra, seja de natureza ecológica ou militar, seja de natureza biológica, como esta que, no momento, travamos. E sendo nós um povo que, ao longo dos nossos oito séculos de história que já levamos, sempre vivemos momentos conturbados e bélicos, obviamente muito sofridos, mas que vencemos, não vai ser agora o tempo de baixar armas e desistir de lutar; se mais não fora, os recentes exemplos da guerra do Ultramar ou Colonial e da conquista e consolidação da Democracia relevem bem da nossa resiliência e vontade de lutar. Sabemos sobejamente como é traiçoeiro, invisível e perigoso o inimigo que combatemos e a escassez e fragilidade de meios que possuímos para lhe fazer frente; só que muitas vezes em qualquer guerra é mais necessária e útil a força psicológica e anímica que motiva os contendores do que o arsenal bélico; e neste particular e até ao momento temos sido guerreiros exemplares. Pois bem, para além desta lição que podemos já retirar da contenda que travamos, outras há que merecem igualmente um aplauso unânime e são as ondas de solidariedade desencadeadas por gente anónima porta a porta, casa a casa, bairro a bairro em favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos; como também o clamor de louvor, carinho e apoio aos soldados da frente de combate: profissionais de saúde, forças de segurança e de meios de socorro e cadeias de abastecimento de meios e produtos de primeira necessidade. Depois, o apoio de muitas empresas e agentes tecnológicos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) com a oferta de testes, máscaras, ventiladores e luvas e as constantes experiências e pesquisas para a criação de outros meios indispensáveis para a montagem de hospitais de campanha, é incansável, constante e incondicional; e todo este irmanar de vontades e mentes é, sem dúvida, a força maior só ela capaz de garantir a vitória final. Todavia, a prisão domiciliária em que vivemos e que imprescindível é ao bom êxito deste combate merece ser pensada e entendida como um ótimo momento de reunião familiar num tempo em que as famílias tão distantes e desunidas têm vivido intrinsecamente; e oxalá daqui possam elas sair para o futuro mais dinâmicas, operativas e coesas que muito necessário é para que possam enfrentar os tempos dificeis que se avizinham; e que os partidos políticos tomam como exemplo a tolerância, harmonia e diálogo das famílias para se entenderem na reconstrução conjunta da vida económica e social do país. Agora, pelo que me é dado conhecer, digno de louvor é também o comportamento de proteção e apoio admirável de muitos filhos aos seus pais já idosos proibindo-os de sair de casa, prontificando-se a vir, muitas vezes de longe, trazer-lhes à porta de suas casas os bens essenciais e tudo que necessitem para viver, bem como acenos, mesmo que de longe, de carinho e afeto; estes filhos revelam uma formação humana e espiritual, uma noção exemplar de família e uma firmeza de caráter que se podia pensar não estarem tão presentes e ativas em sociedades tão consumistas, materializadas e hedonistas como a nossa; e, por isso, o meu orgulho, sincero aplauso e farto reconhecimento a estes filhos que se reveem na genealogia dos seus pais. Finalmente, não é de molde a receber os meus encómios a atuação inicial do governo, porque não respondeu com a força e coesão necessárias no primeiro embate contra o inimigo, sabendo de antemão o que noutros países já se passava relativamente à dimensão e medidas que seria preciso tomar; e, pior ainda, por ter o Serviço Nacional de Saúde (SNS) depauperado e menosprezado de meios humanos e materiais, mesmo os essenciais à vida diária do país e por virar costas aos serviços privados de saúde numa clara afirmação de esquerdismo político impróprio e injusto e que não cabe em nenhum propósito de solidariedade nacional, mormente numa situação de catástrofe como a que vivemos. Pois é, há dias, o ex-presidente da República, Ramalho Eanes, declarou publicamente: Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, respeitamos os conselhos médicos e, se for necessário chegamos ao hospital e oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos. A meu ver, esta não será a melhor solução e parece vir em defesa de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) depauperado que não garante a proteção da vida de todos os cidadãos e , assim, justifica as mortes dos velhos por escassez de meios e porque já não são um bem necessário ao país. Ora, a única e melhor solução tem de ser a que defende a vida de todos os portugueses e não a eutanásia aplicada, deste jeito, aos idosos e que Ramalho Eanes parece defender; para mim a defesa da vida e da dignidade de qualquer ser humano tem de ser garantida custe o que custar, doa a quem doer e o que não pode, nem deve acontecer é, em circunstância algum, ser o médico a decidir, quando os meios escasseiam, quem deve ou não deve morrer. Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
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15 abril 2020