Ao que oiço, leio e vejo diariamente, pergunto como é possível continuar a gostar deste nosso futebol. Questiono-me também sobre quando começou realmente o meu interesse pela modalidade em tempos idos, no Gerês. Finais da década de sessenta, aldeia serrana, o que fazer para entreter?
As minhas primeiras memórias deste jogo surgem no treino (já específico) realizado junto à minha casa quando, sapateiro, merceeiro e alfaiate, fechavam portas.
Com as sobras de tecidos que este último deixava amontoados num canto e com os restos de jornais, faziam-se bolas de futebol que se usavam, literalmente até ficarem desfeitas, em jogos de 1 x 1, 2 x 2 ou 3 x 3.
Estes treinos diários e intensos serviam para depois brilhar nos dérbis, nos intervalos da escola primária, que opunham, Gerês e Assureira. Mais tarde, já na telescola, os dérbis eram, Gerês – Rio Caldo.
De jogos a sério, na TV, lembro-me do mundial de setenta onde apoiei o Brasil e me ficaram na memória do n.º 7 ao n.º 11: Jair, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino. Nessa altura, nos jogos, e porque tinha 7 anos, eu era o Jair e quando marcava um golo, também ajoelhava.
Jogos ao vivo, se excluirmos os casados x solteiros realizados num espaço amplo no Vilar da Veiga (se a albufeira não estivesse cheia e não inundasse o campo), lembro-me de vir habitualmente a Braga quando um dos grandes visitava o 1.º de Maio. Era o chamado “dia do clube” e os sócios tinham de comprar bilhete.
Tendo um familiar sócio e para se pouparem uns trocos eu entrava com ele e depois voltava a sair com o cartão que entregava ao meu pai para ele poder entrar também com bilhete de sócio. É a minha primeira recordação de participar no submundo das ilegalidades futebolísticas.
Mais tarde, quando vim estudar para o Sá de Miranda (74/75), continuava a ser permitido aos jovens entrar, desde que acompanhados por um adulto, pelo que e apesar de residir num colégio católico (D. Diogo) arranjava forma de pecar quinzenalmente, entrando sempre com “pais” diferentes no 1.º de Maio.
A minha prática futebolística, no colégio e no liceu, mantinha-se diária e viciante mas só entrei a sério na modalidade, aos 17 anos, nos juniores do Vieira SC.
Desde então, joguei na faculdade e nos distritais e treinei em diferentes escalões, da formação aos seniores, tendo sido também dirigente desportivo.
Orgulho-me das muitas amizades, e algumas inimizades, criadas, numa modalidade que também ajuda a saber separar o trigo do joio e percebi que conforme se sobe na hierarquia e na importância dos jogos (de bastidores), para além do jogo, que a modalidade perde para tudo (€€€) o resto.
Por isso, aos frequentadores de estádios e redes sociais, como pedido para 2018, sugiro que ao verem e falarem de futebol optem, como eu fiz hoje, por relembrar momentos de alegria que este jogo trouxe à nossa infância e juventude, ao invés de insultos ou agressões que vemos diariamente, porque não foi por este(s) jogo(s) que nos apaixonamos.
Votos de um excelente 2018 para todos.
Autor: Carlos Mangas
Futebol – Da infânciaà idade adult(er)a
DM
29 dezembro 2017