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Fugindo das sombras e à procura da verdade

Não poucas vozes avaliam perniciosamente as designadas “redes sociais”, responsabilizando-as, no seu todo, por desestruturar as relações humanas e até por ameaçar a democracia. Não serão apenas só defeitos, podemos acertar – quem escreve estas linhas também usa as “redes” parcimoniosamente –, mas proponho-me aqui discorrer sobre as suas máculas mais relevantes, por contraposição às virtudes da imprensa mais séria ou institucional.

A letra da bela canção “Solidão”, da banda musical “Os Quatro e Meia”, ainda que deambulando por outros planos do isolamento individual, tornou-se um sucesso certamente porque, para lá da sonoridade apelativa e das qualidades dos vocalistas, desnuda a solitude, ou mesmo o vazio, que marca a sociedade do nosso tempo, a despeito das centenas ou mesmo milhares de “amigos” que colecionemos nas redes sociais.

A realidade virtual disfarça, mas não resolve bem. O confinamento alargado dos alunos nos recentes anos da pandemia, além de dificultar as aprendizagens, particularmente nos anos iniciais, potenciou défices no relacionamento social, é assumido por psicólogos, pais, professores e pelos próprios alunos. Num outro plano, as designadas “fake news” (notícias falsas), muito celebrizadas pelo inenarrável Donald Trump, constituem-se hoje numa séria ameaça à liberdade e à verdade, atento o seu potencial acrescido (pernicioso) pela difusão nas diversas redes sociais.

E aqui chegados, proponho-me agora relembrar o caudal europeu de austeridade e a importância de uma imprensa livre nas democracias liberais.

Estamos, tudo parece, de novo submergidos pela famigerada TINA (“não há alternativa”, no inglês) em termos de política económico-financeira. Ademais, o atual governo português dispõe de uma maioria absoluta no Parlamento e, por isso, a oposição na Assembleia da República pode esbracejar, mas pouco mais. Atentas as lições da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, não obstante alguma disputa verbal dos diversos governos nacionais sobre o ritmo e o nível da subida das taxas de juro diretoras pelo BCE, a austeridade na generalidade dos países da União Europeia ganhou estatuto de norma. Internamente, da oposição, o principal partido, o PSD, bem pode zurzir na distribuição da austeridade imposta pelo atual governo, mas verdadeiramente não aposta num plano alternativo.

Mirrada assim a luta política parlamentar, nesta pasmaceira crua da TINA do tempo em que vivemos, sobressaem na arena política alternativa uma multiplicidade de “casos menores” que, todavia, atenta a corrosão da ética republicana que aparentam, são potencialmente gravosos.

Nas últimas semanas vieram a público nos media (pela difusão de informação judicial ou como resultado do difícil “jornalismo de investigação”) vários “escândalos” políticos, envolvendo o governo – a nomeação, legal, de um membro muito jovem, ainda estudante, para o gabinete da ministra Mariana Vieira da Silva ou a presença no Conselho de Ministros do secretário Miguel Alves – e autarquias diversas, neste caso a propósito do suposto mau emprego ou prevaricação no uso de dinheiros públicos (designadamente em Caminha, de onde saiu o agora acusado ex-presidente Miguel Alves, em Cascais, com o reincidente presidente Isaltino Morais, ou em Odivelas, com o envolvimento de Rodrigo Gonçalves, até há dias membro da Comissão Política Nacional do PSD, da qual se afastou, entretanto).

Retenhamos, porém, que investigar, ou mesmo acusar (o Ministério público), não é o mesmo que condenar. Todavia, também todos sabemos que “em política o que parece é” ou, conforme a consabida frase atribuída a Júlio César na justificação do seu divórcio, “à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo”.

Num tempo em que os jornais, “acossados” pelas redes sociais, perdem leitores, importa reter o quanto estes, e os demais media institucionais, podem relevar para a preservação da liberdade, da democracia e do bem público, quando expõem ou denunciam os sinais de corrupção e os abusos exalados pelos poderes políticos ou, designadamente, por grandes instituições ou corporações religiosas, desportivas ou empresariais.


Autor: Amadeu J. C. Sousa
DM

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18 novembro 2022