O começo do outono trouxe o renascimento da carestia da vida. Como no outono as folhas da suficiência foram caindo uma a uma até juncarem o chão do quotidiano; o povo usa manhas e artimanhas para sobreviver. Em economia poder-se-á chamar a isto o efeito substituição: quando a carne do talho é cara, compra-se frango. Mas, neste caso, nem sequer se poderá chamar uma substituição, porque até para frango a manta está curta. A televisão que ligávamos como acompanhante da solidão, desaparece e apenas se liga para os noticiários. Desapareceu ao ruído de fundo que era como o miar do gato: sem falar fazia companhia. A alegria de poder dar aos netos a prendinha pelos anos e festas de família, será substituída por afagos e beijos que só servem para desapontamento dos miúdos. Também os embrulhos pelo natal caem como as folhas do outono. As migalhas que o governo deu a cada cidadão não passa de mezinha: abranda a dor, mas não cura. Esta impossibilidade de dar é mais dolorosa do que a necessidade de restringir gastos. A solidão é mais negra do que as maleitas da velhice. A falta de iluminação pelo natal traz-nos a tristeza da recordação de anos passados. Poderia ser melhor? Não sei, porque quem sabe é o governo que tem a faca e o queijo na mão, mas sempre penso nos lucros que encheram o papo dos que já o tinham cheio e vejo os do papo pequeno ficarem cada vez com menos para o encher. Tirar aos aposentados como se fez noutro governo para equilibrar défices, é retirar do poço da água a pouca água que resta no fundo. Tirar cada vez mais é chafurdar no lodo da decência e cobrar lágrimas aqueles que já não merecem fazê-los chorar. Um dia um esfomeado pedia esmola à porta de uma casa onde chegavam famílias ricas, ouradas até às orelhas, para festejarem. Ninguém reparou no pedinte porque, olhar para a pobreza de vestido novo, é ter medo de sujar a fímbria. Então o homem foi pedir uma bomba e fê-la rebentar no salão de magníficos candelabros a jorrarem luz que daria para aquecer dezenas de cabanas. Foi a ira do desforço. Talvez se lho tivessem dado não precisaria de o ter à força. As grandes revoluções nunca foram desencadeadas pelas desigualdades sociais, outrossim pela abastança de uns e a miséria dos restantes. A fome berra razão. Mas não é só a fome, a falta de viver com dignidade não berra mais baixo. A ira surda tem sentimentos de revolta contidos mas não adormecidos. Um exemplo: enquanto uns receberam 2000 euros de mitigação, outros receberam 200 euros. Não dá para repetir, o que se dizia há tempos: dá-me o teu aumento que eu dou-te o meu ordenado. É assim que se finta a pobreza? Isto não é uma desigualdade é uma indignidade.
Autor: Paulo Fafe