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Fim de ano, princípio de ano: balanço e perspectivas

Sempre que chegamos ao último dia do ano, naturalmente, sem grande esforço, fazemos um balanço do que foram estes doze meses que nele terminam. Andamos, porém, tão ocupados – ou preocupados! – com o que nos aconteceu e com o que esperamos, próxima ou mais remotamente, que nem sequer nos apercebemos bem de que o ano está prestes a chegar ao seu termo. Mas se este acaba, um novo desponta, nessa rotativa constante que é o tempo em que nos vemos metidos e que por nós passa sem pedir licença. O corpo, a partir de certa altura, parece que emperrou ou regrediu, deixando-nos um tanto alarmados com as carências que nos manifesta, os constantes desacertos que nele notamos e nos faz recorrer a um médico amigo, a fim de nos pôr a par das nossas limitações e dos desgastes que traz consigo o passar dos dias, das semanas, dos meses e dos anos.

Por vezes, chega-nos às mãos alguma sentença de um pensador que nos assusta: “O homem morre como nasce: sem cabelo, sem dentes e sem ilusões”. O seu autor não o recomendo a ninguém, porque revela um pessimismo doentio. No entanto, o seu nome é célebre: Voltaire. Outro, menos conhecido – Léonard –, também revela um pendor negativo sobre a nossa condição: “O homem passa metade da vida a arruinar a saúde e outra metade a curar-se”. Tem alguma razão, como aliás, o primeiro dos autores citados, quando observa também que “o homem ocioso apenas se ocupa em matar o tempo, sem perceber que o tempo é que o mata”.

Efectivamente, o tempo é aquele companheiro da nossa viagem aqui na terra que conhece um princípio e um fim. Disso temos a certeza, ainda que a ciência nos dê uma esperança de mais longevidade, como vemos que sucede em todos os povos nos nossos dias. Mas esta regalia, que nos faz ser idosos com uma contabilidade de aniversários bastante mais volumosa do que em tempos passados não muito distantes, deve levar-nos a reflectir, como nos observa a Epístola aos Hebreus (13, 14), que “aqui não temos morada permanente”. E o último dia do ano pode transformar-se num momento de reflexão e de pausa, que nos faça encarar o que andámos a fazer, o que nos espera e, se damos uma mão à virtude da humildade, a pedir perdão a quem nos trouxe ao mundo, por tantas e tantas oportunidades de bem fazer que desperdiçamos. Já dizia Séneca: “O preguiçoso tem sempre vontade de fazer alguma coisa”. E nós, com toda a certeza, revemo-nos nesta observação, porque houve muitas “coisas” que encontraram na nossa indolência a sua morada adequada. E se nos dói essa verdade, não temos muitas hipóteses para além de aceitar a sua realidade; de contrário, e seguindo Bertrand Russel numa das suas afirmações, sentimo-nos arquivados naquele género de homem que não gostaríamos, em circunstância alguma, de representar: “O mal deste mundo é que os estúpidos vivem cheios de si e os inteligentes cheios de dúvidas”. Ou melhor, não recusaríamos situar-nos na segunda classificação, mas sentir-nos-íamos completamente defraudados no meio das dúvidas que nos tornariam a vida numa colecção dolorosa de incertezas.

Começa o novo ano. De todos os amigos e conhecidos recebemos seguramente votos de muitas felicidades. Mas não tenhamos ilusões: a experiência demonstra-nos que estas não se encontram como um conto de fadas. Não nascem de modo espontâneo. É necessário lutar quotidianamente para as conseguir. De contrário seremos como um idoso modorrento, ou alguém que perdeu o viço da juventude e de tudo e de todos tem uma visão negativa: “O homem começa a envelhecer, quando as lamentações ocupam o lugar dos sonhos” (John Barrymore).

Queremos sonhar, não de modo inútil, mas sabendo que a imaginação é uma força que Deus nos deu – se a não tornamos a “louca da casa”, como dizia Sta. Teresa de Ávila –, para nos ajudar a olhar para o nosso dia a dia numa forma criativa e objectiva, lutando por descobrir o bem que somos capazes de realizar com as potencialidades reais que o nosso criador nos dotou. E, nas circunstâncias duras que nos apanhem desprevenidos, nos magoem e façam sofrer, nunca esqueçamos que, junto a nós, sempre pronto a ajudar-nos, estará o Senhor que nos diz: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei” (Mt 11, 28).


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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3 janeiro 2021