Se à primeira vista nos pode parecer que as Ideias ou a Filosofia são inócuas ou inconsequentes, enganamo-nos, porque é exactamente o fruto do trabalho intelectual de alguns pensadores que foram aproveitados por outros, retirando deles alguma essência mas transformando-os em acções que suscitaram grandes mudanças e conduziram a profundas revoluções, algumas bem dramáticas, as quais ainda hoje se fazem sentir na nossa sociedade.
Se queremos compreender a civilização dum povo ou duma época temos de buscar as teorias que lhes estiveram subjacentes, tal como é impensável ter uma vaga ideia dos princípios que inspiraram a Revolução Francesa de 1789 sem conhecer o pensamento dos intelectuais do século anterior e assim sucessivamente até aos nossos dias.
“Qualquer forma de sondar o fenómeno histórico depende da visão global tomada como referencial e das ferramentas disponíveis; ou seja, é condicionada pelo critério e pelos instrumentos de investigação. Ora, é comum denominar o século XX como o século das ideologias. Usado a esmo, o conceito significa o conjunto de ideias que enformam o modelo imaginado com que se procura explicar o mundo de forma pretensamente objectiva e científica, prescindindo de quaisquer referências transcendentes. Descartando o património cristão para criar o que o filósofo hermeneuta alemão Wilhelm Diltheydesignou por uma Weltanschauungespecífica, as ideologias acabaram, afinal, por emulá-lo, à inteligibilidade procurando construir, com a sua dogmática, representações alternativas do Mundo e da História. O assumir a morte de Deus, considerado obstáculo à inteligibilidade do destino do Homem, e ao destruir os alicerces cristãos do edifício social, a revolução desencadeada no mundo ocidental tinha por objectivo subtrair o Homem a Deus para, por fim, colocar a sua figura abstracta no ‘altar divino’ de uma nova Jerusalém laica.” (…)
“O século XIX foi marcado pelo claro triunfo de uma ideologia pretensamente eclética, porventura por aquela que é referência axial, pelo sentido positivo e também pelo negativo, de todos as outras que lhe sucederiam: o ‘liberalismo’. São bem conhecidas as influências que filósofos como Voltaire, Rousseau, Kant, Hegel, Comte, Litrré, Stuart Mill, Proudhon ou Marx exerceram sobre as ideias políticas dos séculos XIX e XX.”*
Nesta linha o amor ao saber ou Filosofia, foi cedendo o lugar a filosofias de alguns pensadores que com as suas ideias dominaram os séculos XVIII, XIX e XX, muito ao jeito dum ateísmo militante, com laivos de marxismo, existencialismo e nihilismo.
As filosofias dirigem o mundo, ainda que o mundo o ignore. Não é a Ideia em si, abstracta, produzida no espírito de Homens com o gosto pelo pensar, com o prazer de saber e a paixão de alcançar a Verdade, mas o aproveitamento que de algumas se fez, em contextos políticos, culturais, sociais e ideológicos.
As muitas crises que vão assolando o Mundo são consequência destas absurdas fugas de sentido da vida. As distorções perpetuadas em alguns países de cariz laico, ou mesmo anticlerical, são fruto de gerações de filósofos que não só mataram Deus, como o querem afastado do Mundo dos Homens, pois o ser humano sem a referência ao Criador coisifica-se, apequena-se e torna-se mais fácil de ser manipulado.
* “REVOLUÇÃO!”, de José Luís Andrade, casadasletras
Autor: Maria Susana Mexia