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Figuras enigmáticas e paradigmáticas

Na liturgia da Igreja, com a festa do Batismo do Senhor, cai o pano sobre o Tempo de Natal e abrem-se as portas ao Tempo Comum. Na minha vivência, contudo, a ternura, o encanto e a espiritualidade do Natal perduram durante quarenta dias, até 2 de fevereiro, festa da Apresentação do Senhor. É por isso que só nesse dia remeto para o arquivo as músicas, os livros, as decorações e figuras de Natal que, nos inícios do Advento, deles retirei. E faço-o com a nostalgia de quem vive intensamente este tempo e com o desejo de que o próximo Natal não tarde muito a passar. Por estes dias, sem esquecer a Família de Nazaré, tenho prestado uma particular atenção aos últimos personagens a chegar ao Presépio: os Magos. Não há figuras natalícias que ocupem tanto espaço no imaginário popular como estas. Sinal disso é a tradição das Reisadas, de casa em casa, ou nos encontros que a cultura popular promove. E não é desprezível o lugar que eles ocupam nas artes. Na literatura, é sugestivo o conto “Os três Reis do Oriente” de Sophia de Mello Breyner Andresen (Contos exemplares) e a sua poesia sobre a estrela que guiou os Magos. Na música clássica, impõe-se A marcha dos três Reis Magos, de Franz Liszt (séc. XIX). Na pintura, o destaque vai para o quadro da adoração dos Magos de Vasco Fernandes e Francisco Henriques, em exposição no Museu Grão Vasco (Viseu). Na escultura, é prodigioso o retábulo dos Reis Magos, no Estreito da Calheta (Madeira). Alguns exemplos, dos muitos possíveis! Os Magos são figuras enigmáticas e paradigmáticas. Enigmáticas, porque pouco sabemos sobre eles: Mateus é o único evangelista que os refere (2, 1-12), não diz que eram reis nem indica os seus nomes; a tradição chama-lhes Gaspar, Melchior/Belchior e Baltazar, nomes que derivam da literatura apócrifa (Evangelho Arménio da Infância 5, 10 e 11, 1-2) e chegaram até nós pela via criativa da tradição oral. E não são as suas supostas ossadas, veneradas na Catedral de Colónia, que lhes conferem maior historicidade! Mas os Magos são, sobretudo, figuras paradigmáticas, em virtude dos ensinamentos e provocações que deles nos chegam. No dizer do Papa Francisco, “ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros, sábios, sedentos de infinito” (O sinal admirável, n.º 9). Numa expressão semelhante, Luís da Silva Pereira, ex-diretor do jornal Diário do Minho, chama-lhe “espiões do infinito” (De Natal em Natal, p. 67). Os Magos sabem ler os sinais dos astros e deixam-se conduzir por uma estrela (Mt 2, 2), partem à procura, perguntam (v. 2: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”), persistem, prostram-se e adoram (v. 11), oferecem presentes (v. 11), reconhecendo a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a humanidade (mirra) do Menino. Além disso, voltam à sua terra por outro caminho (v. 12), no que isso pode sugerir de mudança de vida. Independentemente da sua historicidade, a tradição encarregou-se de fazer chegar até nós as suas figuras, alimentando o imaginário de gerações e propondo para reflexão e imitação a sua força paradigmática. Representam-nos e exercem sobre nós um efeito mimético, como tantas outras figuras cuja forma de ser e de estar fazem delas modelos a imitar. A personagem que, em Mt 2, 1-12, aparece em contraste com os Magos é Herodes, um homem ignorante, ambíguo e cruel (Mt 2, 16-17 atribui-lhe a matança dos inocentes e a história documenta que mandou matar a mulher e dois filhos). É, pelos piores motivos, uma figura enigmática, mas não paradigmática. Os Magos sugerem-nos que, para encontrar, é necessário procurar; para aprender, faz falta perguntar; para alcançar, impõe-se persistir; para receber, urge saber oferecer; para continuar o caminho de uma vida livre e centrada no essencial, é preciso ter a ousadia de encontrar, sempre e de forma criativa, novos caminhos. Sugestivas indicações para 2021! *Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
Autor: P. João Alberto Correia
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11 janeiro 2021