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“Fez-se pobre por vós”

O Dia Mundial dos Pobres, que ontem se celebrou, foi estabelecido pelo Papa Francisco, na Carta Apostólica Misericordia et Misera, publicada a 20 de novembro de 2016, no fim do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O I Dia Mundial ocorreu um ano depois, a 19 de novembro de 2017, e a mensagem para o efeito publicada intitulava-se “Amamos não com palavras, mas com obras”. Daí em diante, este dia tem vindo a ser celebrado, de forma ininterrupta, no 33º Domingo do Tempo Comum.

“Jesus Cristo (...) fez-se pobre por vós” (2 Cor 8, 9) é o título da Mensagem do Papa para este ano, que assim o justifica: “A generosidade para com os pobres encontra a sua motivação mais forte na opção do Filho de Deus que quis fazer-se pobre” (nº 6). E não só o justifica como também o contextualiza: “Com estas palavras, o apóstolo Paulo dirige-se aos cristãos de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irmãos necessitados. O Dia Mundial dos Pobres torna este ano como uma sadia preocupação para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual” (nº 1).

Um dos fatores de pobreza é a guerra. “Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade” (n.º 2). Além disso, no palco das operações bélicas, são muitos os que passam privações de vária ordem, dando expressão e rosto a uma pobreza que alastra. Tudo isto exige que partilhemos “o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunhão como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade” (n.º 5).

A luta contra a pobreza não pode reduzir-se a palavras: “No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso, acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do património. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope” (n.º 7).

A dificuldade maior, neste processo, prende-se com a noção de pobreza e com os modos de lhe fazer face. O Papa Francisco deixa entender isso, quando afirma que “não se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente é necessário empenhar-se para que a ninguém falte o necessário. Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que permite aproximar-me dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que caí”. E “ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (Papa Francisco, Evangelii gaudium, 201).

Há uma pobreza que escraviza e mata e outra que liberta e ajuda a viver. “A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída” (n.º 8). Por seu turno, a pobreza libertadora é a que “se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quando há de supérfluo e apostar no essencial. De facto, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfação que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam à procura como extraviados sem rumo. (...) Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconscientes, para atracar àquilo que verdadeiramente importa na vida e que ninguém nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade” (n.º 8).

Terminamos desejando o mesmo que o Papa Francisco: “oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida” (n.º 10).


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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14 novembro 2022