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Falar de corrupção em democracia

Não é mais tabu e muito menos reportagem sensacionalista de um qualquer repórter à procura de fama e proveito falar hoje de corrupção de homens e instituições; por isso, uma das evidências salutares dos regimes democráticos é, sem dúvida, a liberdade de imprensa que sempre tem feito, onde existe, cair governos e presidentes e lançado no abismo os mais poderosos e respeitáveis chefes políticos e homens de negócios pela denúncia pública de prepotências, arbitrariedades e escândalos.

Daí que sempre há uma preocupação icástica das forças políticas instaladas no poder em controlar os grandes meios de informação ou, no mínimo, exercer sobre eles pressões e chantagens; e, assim, muito difícil é a qualquer meio de informação sobreviver à custa dos dinheiros dos poderes instalados, mantendo uma isenção e independência ideológica e editorial que lhe permitam ser guardiões de regimes e de instituições.

Pois bem, cá por casa, por esta pequena casa lusitana, as coisas nem sempre têm, ao longo dos tempos, corrido lá muito bem em termos de governação escorreita, quer por parte de alguns homens, quer por parte de muitas instituições; e, pelo contrário, até tem corrido muito mal, pois os escândalos sucedem-se, tendo quase sempre por móbil o vil metal, não escapando a esta evidência o facto de sermos um povo de raça latina com enxertos judeus e alguns séculos de atribulada história financeira.

Ora, esta corrupção permanente (a que nem sequer escapou o recente e vergonhoso episódio da vacinação contra a Covid-19) tem levado ao povo (pobre e bom povo) o pasmo, a insegurança, o descrédito, a revolta, pondo em causa a eficiência, transparência e rigor de certas instituições públicas e dos homens que as sustentam e revelando a fraqueza e impotência do regime democrático em sanar essa chaga purulenta que alastra resinosamente corroendo o tecido social; e não é por ausência de antídotos eficazes contra tal epidemia que o regime democrático possui, mas pelo seu uso e aplicação que, por vezes, se revelam difíceis e infrutíferos, quando instalada nas áreas do poder.

Agora, pensemos noutro tipo de corrupção que não vem nos jornais, nem chega às bocas do mundo e, assim, escapa à maioria dos mortais: é a corrupção encapotada, disfarçada, invisível; e, entre a corrupção visível, denunciada (dos jornais, das rádios, das televisões, das redes sociais, da praça pública) e a invisível (dos gabinetes, das repartições, dos chefes, dos compadres e das comadres) que venha o diabo e escolha; porque, embora aquela seja mais sensacionalista e de sequelas visíveis, esta é mais pestilenta, duradoura, envolvente e precede, normalmente, aquela.

Se pensarmos bem, esta corrupção invisível, sardenta, rastejante tem sempre raízes fundas no caráter cabotino, trampolineiro dos homens e na orgânica viciada, distorcida das instituições, revestindo-se das mais engenhosas formas de atuação, desde as luvas às cunhas, do compadrio à camarilha e instalando-se à roda do poder (pessoal ou público) como moscas em monturos e se alimentando do clientelismo, da partidarite, do arranjismo e do apadrinhamento, promovendo, desta feita, a inoperância, a incompetência, o tacho e a falta de isenção.

Vai, pois, sendo tempo, mais do que tempo de castigar severamente os corruptos e os corruptores (cogumelos envenenados da democracia) que se passeiam por aí, no meio de nós, muitas vezes sentando-se ao nosso lado, empurrando-nos, passando à nossa frente, tirando-nos o lugar no emprego, aos encontrões e cavalgando a mentira e a intriga; e porque vivem instalados à sombra do poder partidário, do parasitarismo, da mentira e da intriga, como lobos mas com modos de cordeiros, de sacripantas, de flibusteiros, se preciso até a alma vendem ao diabo para manterem a sua posição, o seu tacho, a sua influência, as suas benesses sociais; e engordam como sanguessugas, formigando sempre em busca de uma brecha, de uma oportunidade, da melhor forma de empurrarem, de rasteirarem, a fim de galoparem o corcel do poder.

Meus amigos, estejamos atentos e arranjemos formas e meios de os denunciar, de os desacreditar publicamente e de os escorraçar, e não nos esqueçamos que normalmente eles usam de falinhas mansas, de palmadinhas nas costas e de uma verborreia fácil e pegajosa, mas que lhes são facilmente comprometedoras e denunciadoras, porque prometem mundos e fundos e pouco fazem e nada cumprem.

E, sobretudo, exijamos de quem de direito mais justiça e mais célere e operativa; e para que a democracia se exerça plenamente pratiquemos maior vigilância ativa e atuante sobre os responsáveis governativos, instituições públicas, poderes judiciais e inspetivos.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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10 março 2021