twitter

Estaremos a «perder» o coração?

Se algum pedido devemos fazer ao Criador – e há muitos que fazem tantos – é que nos «dê» outro coração.

Na verdade, estamos a «perder» o coração que Ele nos deu. No seu lugar, parece que colocámos uma «pedra de gelo», tão empedernidos nos mostramos em múltiplas situações e diante de quase todas as pessoas.

O problema não é de agora, mas tem recrudescido agora.

O pavor da COVID endureceu-nos o coração e – como observou Inês Teotónio Pereira – «gelou-nos o sangue».

Descontando (e enaltecendo) as heróicas excepções, dá a impressão de que ganhamos «alergia» às pessoas.

Já não amamos, já não sofremos as dores do outro; já mal queremos saber dos seus dramas. No limite, até aparentamos satisfação com as suas adversidades.

O «clã do eu» (Maurice Blanchot) ameaça atordoar-nos completamente.

Incorporamos que a lucidez estriba unicamente numa «inteligência reflexiva», imune a qualquer «infiltração» dos sentimentos e da emoção.

Trata-se, porém, de um equívoco fatal, que afecta a própria inteligência e lesa a humanidade.

Só uma «inteligência cordial», compassiva e acolhedora, rende homenagem a um pensamento que se pretenda inteiramente humano.

É curioso notar que já o Antigo Testamento sublinha que é o coração que torna a «boca inteligente» (Prov 16, 23).

Daí que Salomão – o ícone do rei sábio – não tenha pedido a Deus uma «inteligência forte», mas um «coração dócil para governar o povo» (1Rs 3, 9).

É no coração que está o alicerce da inteligência. Por conseguinte, Deus é apresentado não como conhecedor das mentes, mas como «conhecedor dos corações» («kardiognóstes) (Act 1, 24; 15, 58).

E o Mestre Jesus apela para o Seu «coração manso e humilde» (cf. Mt 11, 29) como principal fonte de ensinamento.

Norberto Bobbio –numa obra a que deu o preciso título de «Elogio da mansidão» – celebrava-a como sendo a virtude mais «impolítica».

À partida, tenderá a ser conotada com ingenuidade ou mera passividade. Contudo, ela «não renuncia à luta por medo ou resignação». Pelo contrário e como acrescenta Gianfranco Ravasi, ela afirma-se «pela paz e pelo respeito», recusando «a destruição, a vã glória e o orgulho».

Não espanta, pois, que Jesus tenha verberado a «sklêrocardia» («dureza do coração») (Mc 3, 5) de muitos dos seus contemporâneos.

Estamos, por isso, perante uma enfermidade muito antiga e duradoura. Muitas vezes, esquecemos que a inteligência não habita só no cérebro. Mais inteligente é sobretudo quem tem melhor coração.

No tempo que passa, prevalece a sensação de que o deixamos fugir. Peçamos, então, a Deus que nos «dê» outro.

E que, de uma vez para sempre, percebamos que com o coração não só amamos, mas também pensamos e entendemos. Só com o coração pensaremos devidamente e entenderemos tudo!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

DM

1 fevereiro 2022