twitter

Estamos na quaresma

Se se olhar a Quaresma como uma época do ano onde só a tristeza ou a melancolia devem ser as regras de conduta, é natural que este conceito se torne acre e aborrecido.

Talvez o imaginemos como uma espécie de doença passageira – ou não são apenas quarenta dias os que a preenchem? – em que é preciso estar sem alegria ou cabisbaixo e sem qualquer manifestação de regozijo.

Ora, a Quaresma não é tempo de mágoa insanável, de consternação insolúvel, ou de nostalgia patológica. Quem a pensar assim, desconhece o seu significado mais profundo e erra completamente o juízo que sobre ela faz.

A Quaresma é, sim, um tempo de preparação do acto mais palpável de amor que o homem conheceu ou pode vir a conhecer. É a comprovação objectiva de que quem ama deveras é capaz de se interessar pela desgraça, pela miséria e pela situação de quem, pelas suas próprias forças, não tem capacidade para atingir a verdadeira felicidade.

Ao mesmo tempo, revela como o amor supera a mera justiça fria e descarnada, porque sabe perdoar as ofensas, as infidelidades, as fraquezas de quem erra e volta a errar, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete, ou seja, sempre, mesmo até quando as disposições do ofensor não prometem, de momento, um arrependimento perfeito da conduta.

Todos os quarenta dias quaresmais apontam para a vitória de Jesus Cristo sobre a morte (celebrada de um modo especial no Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor). A morte entrou entre nós, não por expressa vontade divina, mas pelo afastamento do homem do seu criador e das relações de lealdade e de confiança que ele devia manter para com Deus.

Repudiou-as, querendo encaminhar os seus passos, não de acordo com os desígnios de Iavé, mas segundo os ditames da sua vontade livre, que o próprio Deus lhe tinha concedido gratuitamente no acto em que lhe deu a existência. Assim perdeu a possibilidade de entrar no Céu, para o qual o Senhor o criou, depois de passar pela vida terrena, sem qualquer trauma ou sofrimento.

A responsabilidade divina – que é máxima, porque é perfeita –, quis voltar a dar ao homem essa possibilidade de ventura, e não os trastes limitados de uma felicidade relativa e caduca, como é a que resultou da sua desobediência. Para tanto, pede ao Filho, que assuma a natureza humana e Se ofereça como vítima única e dolorosa, dum modo total e absoluto, para resgatar os pecados da sua criatura preferida, que é o ser humano.

Jesus assume plenamente a vontade de Deus, seu Pai, nascendo e crescendo como qualquer um de nós. É um homem normal, educado no seio de uma família humilde. Torna-Se assim adulto e durante três anos expõe a verdade que o Pai Lhe tinha encomendado.

Uma sua frase – “não há melhor prova de amizade do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” – cumpre-a integralmente, sendo condenado à crucifixão e morte, depois de uma série de maus-tratos tremendamente cruéis e injustos. Tudo aceita para cumprir o que Pai Lhe pediu. Morre de forma afrontosa, como se tratasse de um malfeitor, sem um queixume inútil ou um protesto de desespero.

Consciente até ao fim, pede perdão a Deus por todos os que concorreram para o desenlace da infâmia de tudo o que Lhe está a acontecer, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”… Não conhece a linguagem do rancor, mas do perdão absoluto este homem que é Deus também.

Três dias depois, ressuscita, como tinha prometido. Reconquistou para todos nós, com o seu sacrifício redentor, a graça de Deus e a filiação divina, o que permite, de novo, ao homem aspirar à felicidade perfeita, que é o Céu. A Quaresma é uma preparação para todas estas realidades, sobre as quais devemos reflectir com um profundo sentido de humildade.

Por isso, a Quaresma, se nos convida ao sacrifício e à penitência, porque “o discípulo não é mais do que o Mestre” e “quem quiser seguir-Me, pegue na sua cruz todos os dias” – nunca esqueçamos as observações de Cristo! –, é também um tempo de alegria e de agradecimento por todo o Amor que Deus tem e demonstra por cada um de nós.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

18 fevereiro 2018