No rescaldo das eleições é usual que as opiniões se dividam entre os políticos e os comentadores quanto a quem sai vencedor e vencido, tempos houve em que todos os partidos se reclamavam vencedores, com argumentos impenetráveis ou irrealistas.
A magnitude da vitória absoluta do PS e de António Costa nas eleições do passado domingo não permitem quaisquer dúvidas quanto ao grande vencedor e o principal vencido, o PSD e um Rui Rio que terminou a sua carreira política, sem autoridade sequer para liderar a oposição, como já reconheceu.
Depois de governar o país em minoria e suportado numa geringonça parlamentar com os partidos da esquerda, Costa não só conseguiu sustentar os embates que nos dois anos da última legislatura lhe foram movidos pelos partidos à direita e à esquerda pelo BE e, no final, pelo PCP, como foi capaz de passar a mensagem que a responsabilidade pela não aprovação do Orçamento e queda do governo era destes últimos partidos, revelando uma capacidade e habilidade de gestão política que permitiu ao PS obter uma maioria absoluta de deputados na AR, contra todas as expetativas criadas pelas sondagens mais recentes e pelos comentadores.
Lembre-se que todas as sondagens da última semana de campanha davam um empate técnico entre os dois principais partidos, uma até previa a vitória do PSD e outras duas afiançavam uma diferença a favor do PS de apenas dois a três por cento. Essas sondagens baralharam a perceção da realidade e dimensão do abismo que eleitoralmente separava os dois partidos para, afinal, verificar-se um resultado dentro do que as sondagens previam em novembro até pouco antes das eleições internas do principal partido da oposição.
Na altura escrevemos que Rui Rio refugiou-se na imagem que seria melhor primeiro ministro que Rangel, olvidando que para isso é preciso ganhar as eleições e já se via que contra Costa não ganhava, como resultava então das sondagens que revelavam que apesar da crise o PS continuava com mais de dez por cento que o PSD, o que o ato eleitoral veio agora confirmar.
Em democracia o povo tem sempre razão. Os cidadãos dão muito valor à estabilidade e penalizam aqueles a quem imputam a sua quebra, já foi assim em 1987. Houve uma manifesta transferência de eleitores do BE – que reduz a sua bancada a menos de 1/3 – e da CDU para o PS, com um voto útil visando garantir um governo para quatro anos. Centrar o partido não beneficiou o PSD, que não só não conseguiu captar os eleitores indecisos do centro, como libertou espaço à direita para o forte crescimento do Chega e da IL. Com deceção se assistiu ao desaparecimento do CDS do panorama parlamentar, a escolha do jovem líder revelou-se um erro de casting.
Vitoriosa saiu a democracia com a diminuição do nível de abstenção e a estratégia do Presidente Marcelo revelou-se ganhadora, acreditando-se que terá a capacidade para ser o equilíbrio contra eventuais tentativas de ultrapassagem de linhas vermelhas exigíveis em democracia, que mais se revelam necessárias num cenário de maioria absoluta.
No discurso de vitória António Costa mostrou-se moderado e aberto ao diálogo, o futuro dirá do alcance dessa afirmação e da sua capacidade para controlar o próprio aparelho. Evitou responder quanto ao papel que o PR poderá ter na fiscalização de um governo absoluto, mesmo tendo sido ele próprio a suscitar tal intervenção.
A leitura que foi retirada pelos comentadores e que se afigura ajustada, é que o país prefere uma política mais ao centro. Com mais Estado que o centro-direita desejaria, mas sem o espartilho da estatização que o BE e o PCP impunham para o funcionamento da geringonça. Pode ser que agora o governo apoie devidamente o setor social e que o Estado aumente as suas comparticipações que se situam na ordem dos 38%, muito abaixo da média dos países europeus mais desenvolvidos e que perceba que as IPSS são as primeiras a ajudar a população vulnerável em situações de crise.
Conseguir reduzir o IRS e pôr mais dinheiro no bolso dos portugueses no imediato, diminuir a elevada dívida pública, reduzir o déficit e ao mesmo tempo aumentar a produtividade e obter um crescimento do PIB acima dos países da EU que nos ultrapassaram no índice do rendimento per capita nos últimos anos e com melhores serviços públicos, parece tarefa impossível, mas para a qual todos devemos contribuir, mesmo na oposição.
Autor: Carlos Vilas Boas