twitter

Espiritualidade sem religião?

É recorrente ouvirmos – nas frases ditas em público ou em conversas mais pessoais – dizer: ‘eu cá tenho a minha espiritualidade e não pratico nem preciso de nenhuma religião’... Será isto possível e não passa de mais uma frase de moda e ao sabor da ocasião? Haverá nessa forma de estar algo que tenha a referir-se sobre o modo de ser? Com tanta pretensa autonomia não haverá algo de excesso de individualismo? Até que ponto este posicionamento – com algo mais intimista e menos institucional – é revelador de uma certa cultura? Não vivermos já este ambiente sócio-cultural?

1. Espiritualidade ‘à la carte’. Quem diga a frase citada manifesta por certo uma vivência que não se reduzirá à normalidade, isto é, muitas pessoas (a maioria senão uma quase totalidade) nem pensarão na necessidade de terem uma ‘espiritualidade’ que as possa guiar. O dito materialismo prático – como referia o Papa Bento XVI – não lhes deixa espaço nem tempo para se ocupar com ninharias que não sejam de índole materialista. Aspirar a reportar-se a uma espiritualidade soará a fora do normal, na teoria como na prática.

Há, no entanto, como que subjacente a quem refira aquela frase uma espécie de busca nas diferentes formas de se conduzir na vida, isso a que poderemos chamar de ‘espiritualidade’, isto é, algo que, de forma mais do foro do espírito guia e marca a diferença, senão mesmo serve de mote de conduta, nas pequenas como nas grandes coisas ou acontecimentos pessoais, de grupo ou sociais.

2. Sincretismo, holística ou definição? De facto, quem se reclama de uma certa espiritualidade, normalmente, sente-se mais humanista que outros, sem qualquer noção ou vivência espiritual. Só que, hoje, vemos surgirem propostas e condutas que vão recolhendo das várias espiritualidades aquilo que mais lhe convém, seja pelo interesse, seja por oportunismo mais ou menos acomodado... quase numa espécie de ‘nova religião’ sem ritos – cada um faz os seus –, sem códigos – cada qual engendra o que mais lhe convém – ou ainda sem ética – cada um gera e gere a sua...

Ao escutarmos a frase – ‘eu cá tenho a minha espiritualidade’ – podemos estar perante uma pessoa que tenta recolher das diversas expressões de espiritualidade aquilo que poderia ser considerado à semelhança do menor denominador comum e daí fazer traçar a bissetriz de todas ou quase todas.

Quem souber poderá rever na ‘new âge’ (nova era) essa espécie de sincretismo, tentacularmente recolhendo o que mais agrada nas expressões religiosas mais diversas. Os temas podem ser diversificados, tanto amplos como redutivos: a ecologia (natureza, animalidade ou um tal humanismo sem ética); lutas em favor da idêntica valorização de todas as religiões, desde que possam amesquinhar o cristianismo; defesa das liberdades individuais em detrimento das vivências coletivas; desvalorização de certos temas em relação com a vida (aborto, eutanásia ou reprodução ‘artificial’) e a moralidade (é preferido o termo ‘ética’) à luz dos valores cristãos...

3. Espiritualidade (mesmo) sem religião? Uma das consequências da pandemia que estamos a viver foi esta mesma: as pessoas foram-se fechando cada vez mais, deixando de participar nas atividades comunitárias – no caso católico, na eucaristia dominical – e reduzindo-se a uma espécie de autodefesa, quanto aos outros e mesmo na relação com o divino, se isso implicasse socialização. Deste modo fomos captando (ou capturando) um cristianismo quase a renegar as suas raízes mais profundas e significativas: a assembleia de fé celebrativa e comprometida. Isto como que favoreceu, por outro lado, um certo devocionismo à mistura com sinais preocupantes de uma espécie de religiosidade enjaulada pelo medo, o preconceito e, mais recentemente, por alguma abjuração da Igreja como instituição humano-divina, pecadora-santificada e mistério de presença de Deus em fragilidade...

Os riscos estão aí, assim saibamos reconhecê-los e corrigi-los em conversão permanente.


Autor: António Silvio Couto
DM

DM

7 fevereiro 2022