...O que é que a Militia Sanctae Mariae – cavaleiros de Nossa Senhora diz de si própria?
A MILITIA SANCTAE MARIAE – cavaleiros de Nossa Senhora, MSM, é uma associação de leigos católicos com uma espiritualidade cavaleiresca, fundada por aquele que haveria de ser Dom Gérard Lafond OSB, quando ainda era estudante (c.f. nº 2 de MEMORABILIA) e mais tarde Dom Abade de S. Paulo de Wisques (França) e cujo carisma se define como mariano, beneditino-bernardiano e cavaleiresco. Tem lugar neste aqui e agora, no século XXI?
A MSM cumpre rigorosamente os critérios de eclesialidade, tal como foram definidos em “Christifideles laici” de S. João Paulo II, Magno. Não se perde nada em assinalar este aspecto da MSM.
O seu Fundador, cujo processo para a sua beatificação está a dar os primeiros passos, deixou uma Regra, um verdadeiro Directório Espiritual, que vai sendo actualizada pelas Constituições devidamente aprovadas em Capítulo Geral. Além de muitos documentos que legou com o seu pensamento, sobretudo quando, em Roma, acompanhou a par dos seus estudos, o desenrolar do II Concílio do Vaticano, Dom Lafond, teve a preocupação de deixar uma Liturgia das Horas, que sucedeu ao antigo Ofício Menor de Nossa Senhora, de acordo com as instruções do II Concílio do Vaticano e que finalmente, para uso interno, está editado em edição bilingue, português/latim.
É bem claro que temos na Militia Sanctae Mariae – cavaleiros de Nossa Senhora uma espiritualidade própria, mas nunca é de mais aprofundarmos o seu carisma para se ser fiel ao espírito que guiou o seu Fundador. Assim, apesar da escassa literatura sobre o tema, a espiritualidade dos cavaleiros, literatura séria que rareia, recomendo vivamente a todos os meus Amigos e leitores em geral que leiam e meditem uma obra fantástica sobre o tema e que é: «Le MIROIR DE LA CHEVALERIE – Essai sur l'spriritualité chevaleresque», de Pascal Gambrasio d'Asseux (Edicção de TéLètes, 2015). O autor, no Prefácio (pág. 17) afirma: “Este livro, como o subtítulo o define, tem por único objectivo tentar uma abordagem do que constitui a alma cavaleiresca, do que confere a sua identidade espiritual no seio do cristianismo e tipifica pois o seu modo de oração e de acção….”. o autor, com o apoio constante das Sagradas Escrituras, indica-nos os parâmetros espirituais, morais e religiosos, para a acção, de um cavaleiro do século XXI. É corrente a ideia e o pré-conceito de que este tema e esta forma de carisma está ultrapassado e que só um bando de nostálgicos, “cabides de procissão” ou nefelibatas que só pensam numa ordem política e social medieval carregada de brasões falsos, verdadeiros ou ambos à mistura adopta com forma de exibição pública da sua vaidade e, tantas vezes, vacuidade.
Pascal Gambirasio d`Asseux aponta-nos qual o caminho que devemos seguir se se quer ser verdadeiro MILES e não figuras decorativas ou “cabides de procissão”, o que se for o caso, desvirtua e perverte o espírito cavaleiresco e quem trilhar por essas veredas espúrias trai o que é o carisma único que encerra a verdadeira cavalaria.
«Le MIROIR DE LA CHEVALERIE» é uma obra fundamental para leitura ruminada que sugiro a todos os meus Amigos e leitores que querem aperfeiçoar o carisma mariano, beneditino-bernardiano e cavaleiresco. Quem tem dúvidas sobre a actualidade deste serviço de “acção católica”, deve ler este livro que está extremamente bem fundamentado e ajuda a desfazer preconceitos que remetem este carisma para os nebulosos tempos do passado quando, o presente e os desafios que põe aos cristãos, convocam para um “bom combate” já não de espada e a cavalo, mas com ideias estruturadas e coerentes com o Evangelho.
Pascal Gambirasio d Asseux, na obra citada (pág. 13) diz: “a vocação do cavaleiro inclui restaurar o sagrado em si próprio e levá-lo ao mundo…”. Só assim se pode construir uma “Igreja em saída”: primeiro convertermo-nos para depois converter o mundo. É este o desafio, afinal , para todos os cristãos que o Baptismo convoca para serem apóstolos .
“A cavalaria é uma via espiritual perene (…)” Neste tempo de confusão mental e de perversidade moral, de discursos manipuladores e falsos, de cinismo crepuscular e arrogante, de violência contra o Espírito e, assim, tragicamente suicidário, o espírito da cavalaria, contudo, perdura e mantém através daqueles que hoje, mantêm as virtudes evangélicas que animavam os cavaleiros de outrora.”(C.f. o.c. Pág.18). A Cavalaria “é um estado, não uma condecoração ou um privilégio…”. Se são muitas as situações de vacuidade, o espírito que a caracteriza não é esse. Define-se por um verbo: SERVIR. Servir os mais pobres, servir os valores que fizeram a nossa civilização e, sempre, servir Deus nos nossos irmãos e em toda a criação ameaçada.
«O nosso mundo vive, deveríamos dizer agoniza neste “clima” sinistro. A cavalaria , contudo, permanece uma das últimas forças de luz que podem sanear este ar viciado e vicioso» ( C.f. o.c, pág. 175).
Autor: Carlos Aguiar Gomes