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Escrever a história não é fácil

A história não é uma ciência linear e exacta. Não basta que aconteça. É preciso que alguém a escreva e isso depende, por sua vez, de fontes que tantas vezes escasseiam e outras vezes se apresentam em suportes frágeis. Quando existem, as fontes são de inegável importância, embora possam não ser conciliáveis. Nesse caso, compete ao investigador a interpretação do material de que dispõe para chegar à verdade. Mas, não é fácil nem simples este trabalho. Mesmo quando se escreve a história recente e se recorre à audição dos actores e testemunhas dos acontecimentos, a memória que cada um tem não é igual e pode até não ser certa, podendo trair ou iludir quem escreve, escuta ou quem lê. E quando está em causa a defesa pessoal de um interveniente vivo, a memória acaba, quase sempre, por expressar-se com distorção e condicionar o alinhamento e a verdade da história, exigindo do investigador uma atenção e uma perspicácia maiores.

Vem isto a propósito da publicação do livro que conta as memórias de Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal que antecedeu o actual. Em “O Governador” há uma memória daquele responsável à frente do banco central português que provocou uma reacção violenta do actual Primeiro-Ministro, António Costa, visado na história por, alegadamente, ter pressionado o então regulador para que não decidisse como era expectável que fizesse e em cumprimento com a lei. Na verdade, era/é suposto que o governador fosse/seja independente. E assim sendo, houve ou não houve na altura intervenção do poder político e, em concreto, do Primeiro-Ministro? A resposta não é imediata. É que as memórias dos principais intervenientes não coincidem. Enquanto que um afirma que houve pressão, o outro desmente. Depois, o Presidente decidiu esclarecer os factos na parte em que entrou na história, mas não conseguiu desfazer a polémica – mais uma em tão pouco tempo desde que iniciou funções o último governo socialista. Apesar de aparentemente se ter colocado ao lado de Costa, Marcelo não desmentiu a narrativa do ex-governador. Do que ouvi e li, até ao momento, inclino-me para a tese de que houve intervenção. Não surpreende que o governo português tenha querido evitar um desaguisado com o governo angolano com a mais que provável perda de idoneidade por parte da filha do presidente Eduardo dos Santos. O próprio Presidente Marcelo, ao que é sabido, tinha o assunto na sua agenda ainda antes da sua tomada de posse e incluiu-se no elenco de actores antes de chegar a Belém. É bem possível que tenha havido o tal telefonema que agitou a política portuguesa na semana que passou. Mas, posso estar a interpretar mal as fontes de que me servi.

Os portugueses escolheram, mas…

António Costa afirmou, em resposta aos pedidos de esclarecimento de vários partidos sobre as últimas polémicas no governo, que a direita faz “política de casos”. A verdade é que os casos existem e não creio, por exemplo, que o pedido de demissão do ex-secretário de Estado adjunto do Primeiro-Ministro se tenha devido a uma simples indisposição de Miguel Alves. A qualquer governante exige-se que seja competente e idóneo. Se isso é exigido aos banqueiros, como não se exigir a quem governa o país? O crivo de exigência deve ser, neste caso, pelo menos tão apertado quanto o que a lei exige para o exercício de outras funções privadas. Os portugueses deram maioria absoluta ao Partido Socialista, sim, mas não carta branca para toda e qualquer decisão, para desmandos ou falta de respeito e responsabilidade. Os casos que têm vindo a lume não são inventados pela oposição, são reais e os autores são responsáveis socialistas. Os eleitores, inclusive, têm reagido ao que está a acontecer, repercutindo nas sondagens que não estão a perdoar ao Partido Socialista e ao Executivo em exercício o atrevimento de desrespeitarem o mandato que lhes foi conferido nas últimas legislativas. António Costa aproveita tudo para desviar a atenção dos casos que tem alimentado ou não tem sabido evitar, mas há cada vez mais cidadãos que já não vão na onda nem lhe seguem o jogo. Escrever a história não é fácil, mas há factos que se percebem logo à primeira.


Autor: Luís Martins
DM

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22 novembro 2022