De realçar a presença do arcebispo Dom José e do emérito Dom Jorge, bem como do auxiliar Dom Nuno Almeida. E que entre os palestrantes tenham estado Dom José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Dom Manuel Clemente e o bispo de Lamego, Dom António Couto. E especialistas de renome no nosso país, em Espanha, França e Itália: os historiadores António Matos Ferreira e José Paulo Abreu; teólogos como José Frazão Correia, Cristina Inogés Sanz, João Manuel Duque, Alberto Melloni; especialistas em Comunicação, Ciências Sociais, Estética, Pastoral, etc.
Dado o gabarito do programa e dos oradores, era de esperar maior participação de formadores dos seminários de todo o país, bem como de sacerdotes e antigos alunos dos seminários. As actas com as intervenções de todos os oradores constituirão certamente um manancial de reflexão que em muito poderá contribuir para ir encontrando respostas à magna pergunta: como formar devidamente nos diversos ministérios eclesiais, incluindo o presbiteral? O dominicano francês Hervé Legrand teceu pertinentes considerações sobre como repensar a formação nos seminários numa ‘Igreja mais activamente povo de Deus’, que desenvolva todas as potencialidades da constituição Lumen Gentium sobre a Igreja, mormente o nº 27, que apela para indispensável colaboração dos leigos.
Mas o Congresso acabou em apoteose, na noite de sábado, dia 19, com o concerto na Igreja de São Paulo, antecedido da missa solene e o jantar. Foi executada pela primeira vez a obra: Passio et Mors Domini Nostri Jesu Christi Secundum Lucam, da autoria do inesquecível presbítero bracarense, Doutor Joaquim Gonçalves dos Santos, composta no ano de 1999, precisamente o ano em que foi agraciado pelo município de Cabeceiras de Basto, sua terra natal, com a Medalha de mérito concelhio grau Ouro.
Cremos que mais de 90% dos presentes no concerto não saberiam que estavam a ouvir uma obra de um dos maiores vultos da música bracarense, senão o maior, a par do que foi seu Mestre, Manuel Faria. Basta dizer que, de sua autoria, se podem encontrar 154 cânticos espalhados pela Nova Revista de Música Sacra, de que foi um dos fundadores; 19 cânticos na Revista Música Nova; 9 obras corais sinfónicas; 7 concertos para instrumento, solista e orquestra; 11 para instrumento; 24 obras para coro a cappella e com instrumento, nelas se inserindo a outra paixão, a segundo São João, do ano em que viria a falecer, 2008. Esta é para 3 solistas, coro a 3 vozes, violoncelo e órgão.
Sobre a paixão segunda São Lucas, com que nos deliciamos durante 1 hora e 20 minutos, ele mesmo nos abria o apetite com a nota sobre a obra em causa: «… é o culminar dum antigo e lindo sonho por mim acalentado há muito tempo, desde as cerimónias que então se faziam na Sé de Braga… e já lá vão mais de quarenta anos! O tema sempre me entusiasmou pela sua carga emocional, pelas situações mais contrastantes, pelos textos profundamente enraizados no coração e na alma de cada personagem, desde Pedro, medroso e arrependido, à criada faladeira, até à multidão desenfreada, respirando ódio e vingança nos seus gritos pela condenação de um inocente. Os textos são tirados de São Lucas e S. João. Paralelamente, surgem Hinos e Salmos, Impropérios e Antífonas, parte da sequência do Stabat Mater e uma passagem das Lamentações do Profeta Jeremias, que fazem o contraponto, a moldura e o comentário às várias passagens do Evangelho. Todo este material, à excepção de uma pequena parte pela qual me responsabilizo, foi coligido e seleccionado por teólogos de renome para a belíssima Paixão do compositor polaco K. Penderechi.
A linguagem musical, essa é da minha inteira responsabilidade. Procurei, através dela, realçar os sentimentos mais nobres na vivência do profundo e misterioso drama de uma condenação à morte que valeu a todos nós uma ressurreição perfeita e gloriosa. Desde os contrastes harmónicos, rítmicos ou dinâmicos, ao discurso narrativo, ao diálogo, à oração humilde e confiante, ao louvor mais alto e solene, à melancolia e candura feitas de singeleza e encanto… a música aí está, toda ela em melodias, acordes ou agregados sonoros, tonal ou atonal, a servir tão belos e nobres textos que nos relatam e comentam a Paixão». E termina as suas considerações com uma frase latina, a última, aliás, com que termina a obra e é extraída de São João 19, 30, colocada na boca de Jesus antes de expirar: Consumatum est. (Tudo está consumado).
O longo aplauso, em pé, de todos os presentes, quis traduzir o agradecimento à Orquestra e Coro do Distrito de Braga, maestro e solistas, por tão memorável, aliciante e penetrante concerto.
Autor: Carlos Nuno Vaz