Era uma vez, assim começavam as historinhas onde ela era sempre bela, ele era sempre galante e viviam felizes para sempre. Foram estas histórias de menino que fizeram as almas românticas. Não é deste tempo que vos falo, ainda que possa haver alguma nostalgia romântica no escrito de hoje.
Era uma vez uma cidade que tinha o passeio dos tristes – rua do Souto e rua dos Capelistas – onde todos se encontravam e ao domingo; havia na Avenida Central muita gente, principalmente jovens, que andava daqui para lá, horas a fio num prazer consentido: namorava-se de olhar e sofria-se de amores.
Chamávamos-lhe “o picadeiro”. O romantismo sentia-se, vivia ali, não se inventava. Também havia o relógio dos correios que marcava a hora de outros encontros. Nesse tempo havia elétrico que nos levava da estação até ao elevador do Bom Jesus e o que nos transportava da Ponte a Monte de Arcos.
Não havia nenhumas grandes superfícies comerciais; as lojas eram conhecidas pelo que vendiam e não era preciso peregrinar de estabelecimento em estabelecimento para comprar a fazenda para o fato, adquirir os sapatos novos ou o tecido para o vestido, fosse de passeio ou de noiva. Era uma cidade de duas festas: a do s. João e a Semana Santa.
Falamos de Braga, evidentemente. Esta cidade de hoje ganhou outra dimensão. Saltou a idade média para o pós-modernismo numa passada gigante. A evolução foi rápida a contrastar com a lentidão do passado. Era o tempo em que se não andava com a fralda de fora, nem umbigo à mostra.
Calças rotas, nem os mais indigentes; até os da miséria tapavam com remendos os modernos rasgões da moda das mocinhas de hoje; havia pedintes e aleijados implorando uns centavos e não a exigir pelo menos uma moeda de um euro pelo estacionamento.
As pessoas com quem nos cruzamos hoje são todas desconhecidas; os raros que ainda conhecemos, cumprimentam-nos como se fôssemos íntimos outrora.
Os estabelecimentos comerciais vivem de vazios; é confrangedor olhar lá para dentro e ver os empregados a olhar cá para fora como quem procura a agulha no palheiro; outros fecharam derrotados pela concorrência, transformando-se em outros negócios, dando credibilidade à lei de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
Aqui onde havia um banco há uma pastelaria, acolá onde havia uma sapataria existe um mini mercado, acolá a ourivesaria cedeu lugar à loja de chineses.
Caminhar hoje em Braga já não é deambular entre caras conhecidas, é estar sozinho no meio de tanta gente; neste deserto de cumprimentos, somos estranhos; os conhecimentos pessoais que nessa época eram afetos dessa sociedade bracarense, viraram nulidades.
Os eventos de hoje são muitos; a cidade é uma forja em constante ebulição; os visitantes mudaram-lhe a intimidade, é certo, mas deram-lhe uma vida que a cidade não tinha.
As ruas enchem-se de turistas que vagueiam como águas vadias pelo prado; enchem as ruas e esplanadas de animação; a velha cidade milenar, outrora tão sossegada, rejuvenesce com esta nova seiva que espirra por todos os lados.
A velha senhora acordou e tornou-se moça. Eu admiro quem a transforma, deste jeito, sem aposentá-la; aos seus prosélitos o obrigado merecido.
Gosto de me ficar no passado como quem descansa na velha poltrona, mas também gosto de espreitar o frémito desta cidade remoçada que estruge e traz o futuro no ventre.
Amei-a no passado porque era a minha cidade; amo-a no presente porque é a cidade do bulício dos meus netos. Era uma vez uma cidade que tinha o passeio dos tristes, o relógio dos correios e um picadeiro ao domingo.
Autor: Paulo Fafe