Se é verdade que o termo “samaritano” designava, num primeiro momento, o habitante da Samaria (região central de Israel), também o é que, com o tempo, passou a ter uma conotação religiosa e a designar o seguidor de um pequeno grupo étnico-religioso, derivado do judaísmo, originário da Samaria e com epicentro no monte Garizim. Os samaritanos são hoje um grupo reduzido (cerca de oitocentas pessoas, em 2019), situado no distrito de Holon, em Telavive; e em Nablus (a antiga Siquém), na Cisjordânia.
A Sagrada Escritura refere, com frequência, os samaritanos e, quase sempre, apresenta deles uma boa imagem. O evangelho do próximo domingo (XXVIII do Tempo Comum, Ano C), ao apresentar-nos a cura de dez leprosos, refere que “um deles, ao ver-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta, e prostrou-se aos pés de Jesus, de rosto por terra, para Lhe agradecer” (Lc 17, 15-16). E não é sem intenção que acrescenta: “Era um samaritano”. A sua valorização está presente também na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 29-27).
Contudo, a história de Israel regista uma tensão e até inimizade entre judeus e samaritanos, acompanhada da tendência para a desvalorização destes, que lança raízes no séc. VIII a. C., aquando da invasão da Samaria, por parte da Assíria (722/721 a. C.). E tal deve-se ao facto de o império assírio ter deslocado para a região central de Israel muitas pessoas de outras partes do seu território, gente que levou consigo os seus cultos (cfr. 2 Rs 17, 24-41) e potenciou um sincretismo religioso que os judeus não toleravam. Por esse motivo, consideravam os samaritanos impuros.
Os problemas acentuaram-se quando os judeus regressaram do cativeiro da Babilónia (538 a. C.) e os samaritanos se ofereceram para ajudar na reconstrução do Templo de Jerusalém (cfr. Esd 4, 1-5). A recusa dessa ajuda por parte dos judeus levou ao virar de costas e até à rutura que se traduziu na construção de um templo no Monte Garizim, perto de Siquém (cfr. 2 Mac 6, 2; Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, 11, 321ss.). Este santuário foi posteriormente consagrado a Zeus Hospitaleiro por Antíoco IV e destruído por João Hircano, em 127 a. C., mas o monte Garizim continua a ser, até aos dias de hoje, o lugar de culto dos samaritanos (cfr. Jo 4, 20).
A relação entre judeus e samaritanos transformou-se, com o tempo, em inimizade e ódio, a ponto de os judeus lhe chamarem “inimigos de Judá e Benjamim” (Esd 4, 1), “povo insensato que habita em Siquém” (Sir 50, 26) e de evitarem encontrar-se uns com os outros: “Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam porque ia a caminho de Jerusalém” (Lc 9, 51-53); “‘Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?’ É que os judeus não se dão com os samaritanos” (Jo 4, 9).
Os Samaritanos só reconhecem as Escrituras que estavam em vigor na altura da sua separação do judaísmo, isto é, os primeiros cinco livros, a Lei de Moisés. É por isso que se usa a expressão “Pentateuco Samaritano” para designar este conjunto de livros em que o texto foi transmitido de geração em geração, em hebraico antigo. Além disso, rejeitam a importância histórica de Jerusalém, não possuem rabinos, não aceitam o Talmud dos judeus (coletânea de livros sagrados dos judeus que contém as discussões rabínicas respeitantes à lei, ética, costumes e história do judaísmo) e continuam a tradição do sacrifício do cordeiro pascal, segundo as normas de Ex 12, costume que os judeus já abandonaram.
Ao contrário dos judeus, Jesus aproxima-se dos samaritanos com amabilidade e até os propõe como modelo de comportamento. Além disso, na missão que confere aos Apóstolos de anunciar o evangelho, inclui também a Samaria: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (At 1, 8). Na sequência deste mandato, aí pregou Filipe (At 8).
Ao contrário do judaísmo, seletivo e exclusivista, o cristianismo afirma-se inclusivo e universal, defendendo que a salvação não é apenas para alguns, mas para todos.
Autor: P. João Alberto Correia