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Era o que mais faltava!

É inegável que paira um clima de mal-estar perante a possibilidade de eleições antecipadas, dado haver na esquerda uma série de ultimatos entre os partidos que formam a maioria de governação. Não compreendemos as reticências do BE, nem o azedume do PC, a não ser como estratégia negocial, isto, para poderem tirar do PS as maiores vantagens para as suas teses. Se assim é o que temos de dizer-lhes é que se não goza com o sofrimento dos outros. Uma rejeição do próximo OE desencadearia uma disposição de revolta porque o povo não entenderia como os noivos de poucos anos já se estão a divorciar. O PSD está de mãos atadas quanto a isto porque o secretário-geral do PS, na sua vaidade de liderar um governo de esquerda, descartou ab initio uma coligação com os sociais-democratas. É pena que o sr. António Costa ao rejeitar um entendimento com o PSD, criou um beco donde só sairá muito comprometido com a esquerda e nunca se devem fechar portas porque lá vem uma ocasião em que necessitamos delas abertas. A vaidade de governar à esquerda pode sair cara a António Costa. Os portugueses estão a sofrer com a pandemia e não querem somar a este padecimento uma crise política. Não perdoará a quem a provocar, por muitos argumentos ideológicos que se coloquem à discussão. Não há doutrina ou ideologia que atenue o sofrimento desta pandemia; é uma tragédia. Na mente dos portugueses a política vai ficar para um lugar secundário porque o protagonista vai ser a capacidade de resposta do serviço nacional de saúde e a esperança do aparecimento da vacina contra o Corona vírus 19. A haver crise, vai haver um ressentimento acentuado contra os políticos com natural reflexo nas eleições e quem perde com isso é a democracia. Podemos ter abstenções nunca vistas e isso é uma derrota mesmo para os vencedores. Por outro lado aqueles partidos que estiverem dispostos a viabilizar o Orçamento de Estado, vão apresentar-se ao eleitorado como amigos dos portugueses, quiçá salvadores da pátria. A latência dos sentimentos sociais, uma espécie de vaga de fundo, prefigura a dicotomia entre aqueles que são pelos portugueses e aqueles que são pelo partido. E aqui o egoísmo partidário vai criar uma clivagem entre a amizade e a animosidade ao interesse público. Não entenderemos, nem ideologias, nem ressentimentos pessoais. Era o que mais faltava!O que queremos é que o próximo orçamento de estado não venha juntar-se ao mal-estar provocado pela pandemia. Este orçamento é essencial para mostrar ao investidores que há estabilidade governativa. Isto será entendido como resiliência. O contrário seria somar ao atual desastre económico pandémico, o desastre duma governação periclitante. Será que os portugueses podem ver nos partidos da direita em coligação um governo de legislatura? Sabemos que esta direita pode não ser viável, mas se a esquerda continuar a pensar como pensa, então deve viabilizar o orçamento. Entre dois males talvez a direita apareça como salvadora da pátria e colher daí os devidos dividendos nas próximas eleições. Talvez o eleitorado pense e dê razão a quem diz, quem muda Deus ajuda. Isto também é inegável. Será que a esquerda se quer derrotar a si mesma? Cá estaremos para comentar.


Autor: Paulo Fafe
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5 outubro 2020