Às vezes, quando estou embebido nos meus pensamentos, interrogo-me como seria ser novamente novo, isto é, andar com os ponteiros do tempo para trás. E pará-los onde? Fazer diferente em quê? Nos vinte anos, nos vinte e cinco ou muito mais lá para trás onde a infância e a juventude se sucederam sem nada de interessante para contar. Mas tenho histórias de tanto amor materno, de tanto afeto de irmãos e amigos que não ouso mencionar com o receio de os amesquinhar com as minhas palavras; no entanto diria uma só: mel. Treze, catorze, quinze anos e a alegria imensa de ver acabar a segunda guerra mundial, sem entender o que eram o Exército do Eixo ou o desembarque na Normandia. Apenas gente na rua e a promessa feita a mim mesmo que nunca contribuiria para uma qualquer guerra. Como se eu tivesse uma dimensão tal que pudesse causar um holocausto, por exemplo! E como eu me identifiquei com o texto sublime do padre António Vieira: “a guerra é aquele monstro que se sustenta da fazenda, do sangue, das vidas, e quanto mais come tanto menos se farta”. Ninguém algum dia o disse melhor. Assim, a paz entre os povos parecia um avanço civilizacional porque deixava na história e no horror as sangrentas lutas tribais, as conquistas, a desumanidade da escravatura, os sonhos loucos do domínio da Europa de Napoleão ou Hitler, a vergonha da inquisição, os genocídios de Estaline, de Trotsky, a reforma de Mao Tsé-Tung, para apenas citarmos os maiores criminosos da história dos maus. Mas, pelo que vamos vendo e ouvindo e levando em linha de conta as evidências, Putin e o seu sonho de restaurar a URSS comunista podemos estar perante uma evidência dolorosa; infelizmente parecem-me de papel as paredes das organizações e tratados de paz existentes. Com os meios de guerra que a humanidade hoje possui, desde as tecnológicos às bacterianas, passando pelas tóxicas ou atómicas, receia-se que estejamos às portas de uma calamidade de dimensão mundial. Não sabemos se vai ser assim, nem queremos ser catastrofistas, mas sabemos que uma guerra nos dias de hoje, levada ao limite pela loucura de um homem, poderia ser, no limite, o fim de uma grande parte da humanidade. E tudo isto pode acontecer se a Rússia invadir a Ucrânia. Para já está a invadi-la a prestações: depois da Ucrânia quererá a Polónia, a Hungria, como já quis a Crimeia e, mais recentemente, dando autonomia aos territórios de Donestk e Lugansk; estas são as primeiras etapas para um expansionismo imperial. Se nos ficarmos, é certa a absorção da Ucrânia. Estamos, deste jeito, entre o zero e o nada. Aproveitando o dito de Afonso de Albuquerque, dizemos: de mal com a humanidade por medo a Putin ou de mal com Putin por amor à humanidade. A diplomacia sofreu uma derrota colossal; o primeiro-ministro francês, o Sr. Emmanuel Macron, andou, como barata tonta, a gastar tempo e feitio; a diplomacia sai disto largamente desprestigiada. Putin nunca quis senão a sua razão e, quando assim é, os ouvidos tapam-se às outras. E, depois de tudo isto, num qualquer dia, a Rússia avança mesmo sobre os restos da Ucrânia e Kiev passa a ser novamente uma mera cidade russa. A KJB ensinou a Putin a técnica da expansão e o sonho imperialista moldou-lhe a ambição. Resta-nos uma paz cobarde, ou uma desastrosa guerra mundial. A escolha é entre o zero e o nada.
Autor: Paulo Fafe