Tendo por base a afirmação «o Ano Litúrgico… marca a centralidade da vida cristã, que deve ritmar toda a acção eclesial», a proposta de Dom José Cordeiro é «viver conjuntamente o chamado Ano Pastoral em processo catecumenal do Ano Litúrgico». (Cf. Último parágrafo do ponto 3 da Carta Pastoral).
Debruçando-se sobre o processo sinodal que a Igreja está a viver (ponto 1), afirma que «é um processo sinodal dinâmico, assente em três pilares: comunhão, participação e missão».
Santiago Madrigal – La sinodalidad en la vida y misión de la Iglesia, Madrid, 2019 – afirma que «a sinodalidade se converteu no tema eclesiológico do nosso tempo. Este conceito encerra uma metáfora que descreve a identidade da Igreja como Povo de Deus em caminho, em peregrinação para o Reino, conforme as exigências do Evangelho, sublinhando assim a comum dignidade de todos os cristãos e a corresponsabilidade de todos na missão evangelizadora, em virtude da graça batismal. A sua raiz está no sacerdócio comum dos batizados, manifestando a maravilhosa concórdia de pastores e fiéis, em conservar, praticar e professar a fé recebida». (Cf. P. XI, citando Dei Verbum, nº 10)
A questão da sinodalidade não é uma moda passageira ou um problema marginal: «Implica o actuar da Igreja em todos os níveis e em todas as suas instâncias: desde a mais pequenina comunidade eclesial, até ao colégio episcopal universal, na sua própria dinâmica e na sua relação com o ministério papal. A dinâmica sinodal tem que ver com a própria Igreja e faz emergir a dimensão constitutiva da sua vida: caminhar juntos.» (Cf. Pág. XII)
Francisco, papa sinodal, quer uma Igreja sinodal, com um claro objectivo: «reviver e refrescar a missão evangelizadora nas distintas igrejas locais e na Igreja universal». Foi o caminho traçado no Discurso dirigido à 70ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Italiana, em 22 de Maio de 2017: «Caminhar juntos é o caminho constitutivo da Igreja; a figura que nos permite interpretar a realidade com os olhos e o coração de Deus; a condição para seguir o Senhor Jesus e sermos servos da vida neste tempo ferido. Respiração e caminhada sinodal revelam o que somos e o dinamismo de comunhão que anima as nossas decisões. Só neste horizonte podemos renovar de verdade as nossas decisões. Só neste horizonte podemos renovar realmente a nossa pastoral e adequá-la à missão da Igreja no mundo de hoje; só assim podemos enfrentar a complexidade deste tempo, agradecidos pelo percurso realizado e decididos a continuá-lo com parrésia (determinação, coragem)». (Cf. P. XIII – XIV)
«O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (17/10/2015, nos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos).
Entendamo-nos: «a sinodalidade não é um simples procedimento operativo, mas a forma peculiar em que vive e opera a Igreja, isto é, a dimensão constitutiva da Igreja, que encontra os seus fundamentos teológicos no mistério da Trindade. É aí que se situa a condição peregrina e missionária do Povo de Deus, dentro de uma eclesiologia de comunhão. É por isso que a sinodalidade não designa só um estilo, um modo de viver e operar, mas também aquelas estruturas e processos eclesiais em que se exprime de forma institucional a natureza sinodal da Igreja nos distintos níveis da sua realização: local, regional, universal, designando, em consequência, determinados acontecimentos previstos no ordenamento canónico». (p. XV)
Por fim, e não menos importante: «a sinodalidade está no coração da missão e da diaconia social da Igreja. Daí surge o chamamento à conversão espiritual e pastoral, bem como ao discernimento, que são condições indispensáveis para fazer uma autêntica experiência de Igreja sinodal» (p. XV)
A sinodalidade não é um caminho fácil, mas exigente e custoso. Aos prelados da Igreja greco-católica ucraniana (5-7-2019) disse Francisco: «Ser Igreja é ser comunidade que caminha junta. Não é suficiente ter um sínodo, temos que ser sínodo». Para isso, é necessário um intenso diálogo e intercâmbio, um diálogo vivo entre pastores e fiéis. Há 3 aspectos que reavivam a sinodalidade: a) a escuta, isto é, a sensibilidade e abertura às opiniões dos outros; e escutar é tão mais importante quanto mais se sobe na hierarquia; b) a corresponsabilidade, porque o caminhar juntos não pode acontecer sem a correcção fraterna que purifica a Igreja dos erros e a faz avançar; c) a participação dos leigos que, como membros de pleno direito da Igreja, estão chamados a exprimir-se e fazer sugestões. E não basta que sejam acolhidos; devem ser verdadeiramente escutados». (p. XVI-XVII)
Este é o rumo marcado pelo Vaticano II, mas ainda muito pouco verdadeiramente consciencializado e seguido pela generalidade dos fiéis baptizados.
Autor: Carlos Nuno Vaz
Enquadramento diferente do Ano Pastoral Arquidiocesano 2
DM
1 outubro 2022