Como já aqui vinquei mais de uma vez, o futebol não é do mundo da razão. Não é inteligência, não é lógica nem geometria. O futebol é, acima de tudo, do mundo das emoções, das paixões, do instinto. E as emoções multiplicadas por uma multidão conduzem a fenómenos mediáticos, por vezes espetaculares e capazes de fazer arrepiar qualquer alma empedernida.
Hoje gostava de referir aqui dois fenómenos que, totalmente distintos entre si, manifestam o que de melhor há no futebol. Muitos já disseram que o melhor do futebol são os jogadores; outros afirmam que são os adeptos; eu penso que o melhor do futebol está um pouquinho por todo o lado.
Comecemos por falar de um jogador. Não é um futebolista qualquer, é o melhor do mundo, ou um dos dois melhores, se quisermos ser modestos. Cristiano Ronaldo é para aqui chamado por um pormenor pequeno, que até pode ter escapado a muita gente, na gala de há dias em que foi pela quinta vez eleito o melhor futebolista do mundo. Só um fotógrafo captou o momento, o que significa que o gesto não foi calculado mas bastante espontâneo. Mais uma vez, Ronaldo encaminha o filho para junto de Messi que o cumprimenta efusivamente. Episódio semelhante já tinha acontecido numa outra gala em que Cristiano dizia mesmo a Messi que o seu filho era seu fã (seu, de Messi). Isto não é habitual e demonstra um enorme desportivismo e uma forma muito positiva de ver o desporto.
O normal seria que o craque convencesse o seu filho que ele próprio era o melhor do mundo e os outros eram, quando muito, concorrentes de valor, mas sempre num plano inferior. Com este gesto o nosso craque dá, no entanto, uma lição de desportivismo que todos devíamos lembrar quando convencemos os nossos filhos que o adversário é o inimigo a abater.
Outro episódio, bem diferente, pode ser apontado como momento alto de emoções fortes e extraordinário desportivismo: a homenagem feita aos bombeiros e às vitimas dos fogos, pelos adeptos e claque do Vitória de Guimarães, na passada segunda feira à noite, antes do jogo com o Portimonense. Um minuto de silêncio respeitado religiosamente, com vinte e tal bombeiros, alguns deles visivelmente emocionados, colocados entre os jogadores que se alinhavam no centro do terreno. Nas bancadas, ecoavam os aplausos unânimes aos soldados da paz e a por vezes agressiva claque do Vitória exibia uma enorme faixa onde se podia ler “Obrigado Soldados da Paz”.
É isto que faz do futebol um desporto bonito. É isto que o futebol pode, ainda assim, trazer à nossa sociedade: exemplos de gratidão, de solidariedade, de respeito pelos outros. As rivalidades podem perfeitamente conviver com este espírito de paz e emoções positivas.
Tudo isto contrasta com a postura sistematicamente negativa, sombria, por vezes carregada de ódio por parte de alguns dos dirigentes de clubes, principalmente dos chamados “grandes”. Alguns personagens só aparecem para denegrir o adversário, acusar, lamentar-se, fingir-se de vítimas enquanto destilam ódio, servindo de guias para comentadores de televisão que apenas fazem eco desses maus exemplos. Só uma pequena amostra da pequenez: a recusa por parte do Belenenses em adiar o jogo em Tondela, cujo pedido se fundamentava nos dramáticos incêndios do fim de semana anterior.
Autor: Manuel Cardoso
Emoções
DM
26 outubro 2017