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Em tempos melancólicos de pandemia

Após todo o tempo de permanência forçada em casa, muitos de nós começamos a apreciar com outros olhos o nosso dia a dia normal, em que o trabalho ocupa uma boa parte das nossas horas e dos nossos esforços.

Somos, com frequência, ingratos para connosco e o nosso tipo de vida. Queixamo-nos em todas as circunstâncias, ou porque a profissão nos suga uma parte considerável das nossas preocupações e nos esgota, ou porque este espaço de lazer doméstico nos começa a aborrecer e a contristar. A verdade é esta: sobram-nos horas, fartos de ver televisão, e a família começa a ficar saturada com esta espécie de prisão domiciliária a que estamos condenados. Cada um dos seus membros manifesta mais nervosismo, tornando-se embirrento por tudo e em tudo, com todos e consigo mesmo.

Protesta-se mais pela comida, que nos parece pouco saborosa ou muito repetitiva e nos provoca fastio. As noites não nos dão o descanso ambicionado, apesar de dormirmos mais horas ou, pelo menos, passarmos mais tempo deitados. E depois, quando nos levantamos, vamos privar novamente com as mesmas e poucas pessoas, que são sempre iguais e mostram com espontaneidade como são quando não sabem bem o que fazer. O tempo sobra, o panorama não muda, tudo aborrece e enerva.

E começamos a conjecturar soluções para o que não tem solução. A imaginação é capaz de nos fugir para horizontes impossíveis, onde nós protagonizamos situações lunáticas e improváveis. Agrada-nos sonhar. E quando já estávamos em altos voos inimagináveis em situações normais, um familiar convida-nos para fazer qualquer coisa que, por vir de quem vem, é, à partida, uma autêntica “chumbada”.

Se acedemos, começamos por mostrar má cara. No entanto, curiosamente, à medida que vamos cooperando, não é que o façamos de sorriso aberto, mas descobrimos que, afinal, a tarefa para que fomos convidados tem os seus encantos, ou melhor, tem o seu interesse. Ocupa-nos, numa palavra! Vemos que nos preenche alguns momentos que, paulatinamente, se vão tornando, se não totalmente agradáveis, pelo menos capazes de nos entreter.

E fixando-nos no familiar que nos desafiou, concluímos que estávamos a ser injustos com ele. Até há pouco, só de pensar que iríamos passar todo o dia na sua presença inevitável, o panorama tornava-se negro e maçador. Descobrimos, porém, que ele é uma pessoa normal e generosa. Desafiou-nos para, com ela, fazermos qualquer coisa que tem os seus atractivos. O interesse vai crescendo e a satisfação aumentando.

E a nossa memória começa a trazer-nos, de modo natural, qualidades do familiar. Recorda-nos, numa ou noutra ocasião, o seu procedimento. E rectificamos: afinal, não é egoísta e foi generoso. Se não fosse ele, aquela situação concreta em que interveio oportunamente teria sido desastrosa. Mais: foi inteligente, não deixou de exigir o que era devido e não hesitou em saber desculpar a quem estava errado, apesar de lhe chamar a atenção para o seu erro.

Com tais congeminações, perdi o sentido da colaboração que me tinha pedido e, sem o querer, deixei cair ao chão aquele pequeno quadro que ele, com a minha ajuda, estava a limpar e a alindar. Saiu-lhe uma expressão muito nortenha. Eu só não fiquei de novo de nariz torcido, porque reconheci o meu descuido... De facto, tinha razão: era necessário que eu segurasse bem o que devia e não me desleixasse. Foi então que me lembrei de Santa Teresa de Ávila, quando dizia que, se não temos cuidado com a imaginação, ela pode transformar-se na “louca da casa”.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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18 abril 2020