Quem não anda a dormir na forma nem de cabeça quente sabe que, mesmo já não sendo um jardim à beira-mar plantado, o nosso país se transformou num eldorado para estrangeiros endinheirados; e, assim sendo, alemães, brasileiros, russos, chineses, americanos e muitos, muitos mais compram, se não é ao preço da uva mijona para lá caminha, o melhor e mais genuíno que temos: palacetes, empresas, propriedades, monumentos históricos e, até, aldeias rurais despovoadas; e, igualmente, os reformados abastados, mormente de países do norte europeu, gozando vão por cá as suas reformas doiradas.
Ora, esta vaga de imigração de luxo acontece fundamentalmente devido às facilidades que lhes são concedidas através de vistos gold e de todo o tipo de isenção de impostos; e mais, o governo tem criado um regime de exceção na concessão de autorização de residência urgente a personalidades relevantes no domínio científico, cultural, desportivo, económico ou social; só no último ano e meio foram dadas 205 dessas autorizações; todavia, se este mecanismo de atração de estrangeiros já vem de longe, o Governo de António Costa pôs os vistos gold em saldo, segundo a imprensa diária, baixando o valor da sua aquisição para 200 mil euros.
Mas, afinal, não é tanto o clima ameno, a boa gastronomia, as praias de sonho, a beleza das paisagens, a simpatia das pessoas ou fundamentalmente a segurança de que o país goza que atraem estes estrangeiros; mas, seguramente, o paraíso fiscal em que para eles o país se transformou e a oferta barata de bens e serviços que lhes são oferecidos.
Depois, estes imigrantes de luxo atacam as melhores zonas do território, seja para residência permanente ou provisória, seja para investimento; e, então, como o Governo lhes facilita a compra de tudo do bom e do melhor, é um fartar vilanagem como já nos recuados tempos da Monarquia aconteceu com as vinhas do Douro.
Pois bem, a pergunta que se impõe é: e nós, os naturais e donos destas riquezas e maravilhas o que lucramos com esta proteção aos estrangeiros? Pouco, muito pouco ou nada, pois somos expulsos para as periferias onde ninguém deseja morar e viver, assistindo impotentes à usurpação do nosso património e à utilização indiscriminada do que mais genuíno possuímos (território, edificado, gastronomia, espaços e paisagens).
E isto até nem é o mais gravoso da situação. Já pensou amigo leitor, por exemplo, que para nós os impostos sempre estão a ser agravados e as condições de vida no acesso e uso dos bens de primeira necessidade dificilmente melhoram? E milhares de portugueses, quantos deles emigrantes de luxo pelas suas classificações académicas, profissionais e potencial de massa cinzenta, e quase sempre pouco distinguidos, quer a nível profissional, quer a nível social, tratados são nesses países de acolhimento com pouca dignidade.
Claro que esta política de atração e cativação do dinheiro através do investimento estrangeiro nos dá muito jeito, ajuda a economia a crescer, animando os mercados de capitais e colaborando, assim, na diminuição da dívida e do défice; mas, em contrapartida os impostos que esses estrangeiros deixam de pagar temos nós de os pagar por eles e os demais benefícios fiscais que lhes são concedidos acabam por se transformar em pesadas obrigações para todos os contribuintes, isto é, para nós entra por um lado e logo sai por outro, ou seja beneficio zero.
Perante a situação e parafraseando o sapateiro de Braga, é bom lembrar a quem nos governa que ou comem todos ou haja moralidade; porque se assim não for, é caso para praguejarmos:
– Porra, vai cá uma nortada!
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
Eldorado para estrangeiros
DM
25 outubro 2017