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Educar versus inculcar

As crianças, por vezes,  acomodam-se às circunstâncias, esperando que as entretenham ou que as carreguem às costas, porque lhes deram tudo já mastigado e refinado, substituindo-as a elas no seu processo natural de descoberta do mundo. O étimo “inculcar” insinua uma ação exclusivamente vinda do exterior. “inculcar” (in – para dentro + calcis – calcanhar), etimologicamente, significa, no fundo, utilizar o calcanhar como um martelo para cravar com força algo dentro de outra coisa. Daí vem o seu significado atual de infundir, à força, no espírito de alguém uma ideia ou um conceito, sem ele estar preparado para o receber como interessante para si.

Por sua vez, a raiz etimológica de “educar” (vindo de educere), implica um movimento de dentro para fora. Educar inclui, no fundo, um processo de autoeducação. O paradigma do educador que educa verdadeiramente é acolher e não impor. Quem educa aceita a criança como ela é e acompanha-a na sua busca pela excelência, rodeando-a de oportunidades para que chegue por si até elas, protegendo o seu olhar daquilo que não lhe convém.

Acolher é deixar de projetar sobre a criança as dificuldades e as complexidades do mundo adulto, passando-lhe todo o tipo de intenções mesquinhas que ainda não tem idade para poder assumir. A criança não é um pequeno adulto, mas é simplesmente uma criança. Acolher e orientar é o que faz de todos nós autênticos seres humanos: tanto quem acolhe, como quem é acolhido. Acolher é reconhecer que a criança é o protagonista da sua biografia e da sua formação e que tem necessidades básicas e ritmos que não são os nossos. 

Pelo contrário, quem se limita a inculcar, age segundo a sua própria medida, não a da criança, querendo fazê-la à sua bitola. Se não há um acolhimento prévio ao ato de dar, a prenda que damos é imposta. É uma prenda que hipoteca a criança. Mais que as prendas, a criança prefere que gostem dela. Os incentivos não são duradouros, porque são recompensas que geram comportamentos condicionados, que não são livres, e criam dependência nas pessoas, nas instituições e até nos governos. Do mesmo modo, os castigos e as imposições, tal como se apresentam em muitas tradições e em tantas leis e códigos de ética, também não são soluções adequadas, porque acabam por gerar anticorpos que têm o efeito contrário ao desejado.

Estamos numa cruzada pela liberdade, mas nunca houve tanta gente “teleguiada” nas suas vidas por aquilo “que está na moda”. Mas não há liberdade sem vontade, nem vontade sem motivação. E a motivação só será permanente se for autêntica, se irradiar do interior do ser humano.


Autor: Artur Gonçalves Fernandes
DM

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25 maio 2017